No outro dia passei por ti. Confesso que tive que parar o carro, sair. Acendi um cigarro e tentei a todo o custo esvaziar a cabeça. A sensação que tinha no corpo, conheço-a de cor. O batimento cardíaco é o mesmo, a ansiedade é a mesma, ambos são iguais àqueles que sinto quando fico defronte a um júri à espera que o silêncio se quebre com música que elegi para fazer mover o corpo, para dar a conhecer emoções. São iguais a quando pisava o palco e perdia o olhar para lá da plateia (e mesmo depois de tanto o pisar, nunca deixei de sentir). São iguais aos que me fazem correr quando toca a sirene… entre tantas outras coisas que me envolvem quando te cruzas no meu olhar, este batimento, esta ansiedade são estrondosas. São os denunciadores de que algo que exige de mim se aproxima, algo extremamente importante que exige a minha crueza, a minha humildade, a minha verdade, aquilo que sou, que amo e para o qual vivo, que exige que seja genuína. Oh, se tu soubesses como eu sou viciada, como eu admiro e procuro tudo aquilo que me causa essa ansiedade, esse batimento, tu compreenderias os meus dias, os meus sorrisos, todos os passos que dou.
Filosofias fáceis descrevem a vida pela sua efemeridade. Outrora também eu julguei que tudo era efémero. Raios!, como me sinto enganada por ter crido e sucumbido em algum instante nessa/ a essa não-verdade. A memória eterniza momentos e sobretudo sentimentos, aqueles que nos coagem a fazer melhores escolhas, a corrigir erros, a reflectir. Em algum momento tudo é eterno, porque assim nos permite a memória, mas não por recordarmos o que passou, não, isso não. Só é eterno, aquilo que, de alguma forma, ainda nos provoca emoções, aquilo que, em algum minuto da nossa existência, nos faz questionar, nos rege as acções. Estas sim, são passageiras. As emoções nunca. Nada pode ser efémero porque a vida um ciclo.
Não questiono o meu dia de amanhã. A semana que vem. Os próximos 20anos. Tu assustas-me. Tu fascinas-me. Às vezes não quero saber de ti. Muitas vezes creio que és idiota, absurdo. Camus dizia que "o absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites"; eu gosto do absurdo que te envolve, que tu envolves, mas gosto sobretudo da minha aversão, que culmina numa paixão, paradoxalmente, por limites ou falta deles. Passo por ti e preciso parar. É uma-qualquer-coisa que eu nunca soube bem explicar. Sempre existiram muitas realidades na minha vida que, de alguma forma, me assustaram. Um misto de apreensão, deslumbramento, duvida, medo e aquilo-que-alguém-chama-de-borboletas-na-barriga. E eu sempre tão tendenciosa (a ambiguidade da palavra sou eu que a faço) para correr atrás dessas “muitas realidades”, daquilo que sempre me foi desconhecido… TU nunca serás efémero. Para a natureza, talvez. Para mim, nunca. Tu és emoções. O plural da palavra deveria só por si explicar a tua complexidade. Há sempre certezas, meu bem. Foi com elas que apaguei o cigarro e segui viagem… com aquela paz de sempre.
Persephone
2 comentários:
Absolutamente rendida à tua escrita!!!!Desculpa a invasão.
Muito obrigada. :)
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