"A realidade é o nada temeroso. A vida somos nós que a construímos à custa de quimeras, de gritos, de ternura: o mundo pertence-nos: a árvore, a água, o que te rodeia de simples, de belo, ou de trágico, o que te faz viver e o que nos faz viver - tiraste-o da tua própria alma. A realidade é o negrume, o abismo donde só sai o silêncio. O sol foste tu que o criaste - porque a realidade é a treva: a luz nasce dos borbotões de teu ser."
Raul Brandão in "A Farsa"
Detive-me hoje neste parágrafo. Como assim a realidade é o "negrume", o "silêncio", o "abismo", a "treva"? Recuso-me a aceita-lo! Recuso-me a excluir a realidade da minha vida, a excluir esse "negrume", "silêncio", "abismo", "treva", recuso-me a abdicar desse mal, a resignar-me a essa definição! Antónimos, opostos, dicotomias, antíteses...que seria do bem sem o mal, que seria da ordem sem o caos, da guerra sem a paz, da liberdade sem a clausura, que seria do amor sem o ódio? Porque não dar o devido valor a esses mal-amados opositores se o seu papel é fundamental na aprendizagem humana? Diz-me que não estou louca! Achas um paradoxo? Exorcizarias a realidade da tua vida para a tornares mais simples? Não, não o podes fazer, sei que não o farias. Se dissesses que sim, seria como matares a boa fé de um cristão que crê cegamente na ressurreição de Cristo, que dá sentido à vida através dessa crença, pois um dos teus papéis não foi mais do que me fazer crer a mim que, por mais dura que seja a realidade, se formos fiéis a nós próprios, a vitória é "indescritivelmente" sublime. Como te agradeço, querido...
É isso, o sublime depende da relação Homem-Realidade: a aprendizagem é maior, seremos mais sábios, quão melhor soubermos enfrentar a realidade que, consequentemente, quanto mais dura for mais sapiência nos confere.
As isotopias de realidade, então, não podem ser negativas. Brandão estava equivocado! Ou estamos todos quando, inutilmente, associamos estes adjectivos e "culpamo-los", "humilhamo-los" por não compreendermos que tudo reside na atitude humana.
Persephone
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