Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 20 de maio de 2011


(...) da porta Inês via Henrique no telhado. Aquele sítio mágico, com uma entrada privilegiada para o sótão onde ela se perdera tantas horas contemplando relíquias de outrora, aquele sítio onde tantas vezes se escondera para atingir Tiago "mortiferamente" com uma flecha nas suas brincadeiras de criança. O telhado era plano, como uma varanda. Era amplo e virado para o sol, virado para todos os lados da casa. De cima via-se o pátio, todas as janelas e um longo campo verde. O Inverno já havia começado, e estava muito escuro. Subiu as escadas - lembrou-se de Ana ali sentada, a desenhar; sempre soube que seria uma grande artista - em cada degrau uma memória, memória que só ela tinha e que queria desesperadamente partilhar com aquele estranho.
- O céu está lindo! - disse.
Henrique voltou-se e sorriu. - é verdade... - respondeu. Inês continuou:
- Quando era mais nova queria muito ser astrónoma, mas nunca me dei muito bem com a matemática e com a física. Penso não, decididamente a minha área são as letras.
As palavras enrolavam-se nos lábios, eram tão inúteis como a sua pressa. Havia algo nele que não a deixava pensar, havia algo que a fazia quase perder os sentidos. As pernas tremiam e ela não o conseguia olhar. Inês tinha a força de um exército mas era frágil como cristal. A sua ambição era poderosa mas a sua sensibilidade cruzava-lhe os caminhos. Henrique, lentamente, encostou o seu peito às costas dela e abraçou-a. Fez-se silêncio e ambos os rostos olharam o céu. A sensação era indescritível, sentiu-se fraca, pequena, loucamente apaixonada e de novo amaldiçoou o tempo por não parar, por não a fazer morrer naqueles braços (...)
- Obrigada por estares aqui... - disse-lhe.
- Se não tivesse vindo não aguentaria. É muito difícil lutar contra a saudade. Penso em ti dia e noite e escrevo. Sinto tanto a falta do teu sorriso...
Inês interrompeu-o de fúria e êxtase virando-se, frente a frente. Segurou-lhe o rosto com firmeza, como se entre as suas mãos estivesse o seu próprio coração: - E eu do teu, meu amor. De te abraçar, de te olhar, só de te olhar... - cravou os olhos nos dele - Amo-te tanto que corro o risco de enlouquecer. Estás no meu pensamento a todo o instante, sufoco quando anseio beijar-te e não posso, quando quero chamar por ti e estás tão longe...quero-te tanto...
Todo o corpo tremia agora...a alma também. Prosseguiu num pedido em desespero:
- Quero morrer primeiro que tu. Não aguentaria sofrer a tua ausência. - aquela ruga que Henrique tinha na testa, entre os olhos, de quem perdeu noites questionando-se, de quem observou doentiamente cada passo em seu redor, de quem tentou responder às angústias da juventude, desfez-se. Inês sentiu a sua mão quente arrumar, suavemente, uma madeixa de cabelo e a regressar, pelo mesmo caminho, ao seu rosto aflito. Henrique abraçou-a e ao ouvido desarmou-a subtilmente:
- Eu, se pudesse escolher, também preferia que partisses primeiro. O meu sofrimento eu aguentava, mas nunca aguentaria ver-te sofrer quando eu tivesse que me separar de ti...
Inês gelou e, enraivecida, empurrou Henrique. Apertou a cabeça num gesto de negação, e um turbilhão de emoções saltaram-lhe à boca. Rapidamente se misturaram a admiração e o espanto com a revolta e a sensação de egoísmo. Como podia ele conhece-la tão bem? Como sabia ele o quanto o amor lhe significava? Como poderia alguém tão altruísta amar uma mulher assim? Pior, como ousara ela ser tão egoísta? Ela, logo ela que punha tanta intensidade nas mãos sempre que se entregava? Não, não podia aceitar tamanho acto de desamor vindo de si mesma. Olhou Henrique cheia de lágrimas, lágrimas de arrependimento. Tinha os olhos grandes e castanhos que buscavam os dele numa procura de perdão desesperado. As pernas já não tremiam, deixaram apenas de lhe obedecer. Inês deambulava naquele telhado, sem norte, apertando a cabeça e pedindo perdão.
Estava frio, tanto frio ali e ambos ardiam numa paixão insana que nem as palavras destronavam - era urgente agir.
Henrique agarrou o braço de Inês e firmemente puxou-a para si gritando-lhe: - Olha para mim, amor! A respiração ofegante foi cedendo e ele sussurrou-lhe:
- Eu amo-te. E é assim que te quero. O que tens dentro de ti é lindo e é isso que me faz feliz. Tu fazes-me feliz.
- Afinal não sei amar. - respondeu derrotada.
- A tua inocência é pura e enternece-me. Tu vais crescer, e vais crescer comigo. Juntos.
Henrique apertou-a num beijo. Um beijo que, a ambos, soube a paz, a uma eterna confiança, a uma feliz esperança e a fogo, como todos os outros, como se fosse sempre o primeiro.
- Meninos, venham jantar!
Era a mesma voz, a mesma voz que odiou em criança sempre que interrompia as brincadeiras, e que agora odiava de novo.
Deram-se as mãos. Nascia a certeza da eternidade. (...)


Excerto do meu livro "A dor por trás do pano preto"
2004



A maior lição que levo para a vida.

Nem este excerto, nem a ligação com esta foto estão aqui por acaso, meu querido. No fundo, quis apenas dizer-te que és, mais do que tudo, meu. Meu na memória, meu em algum momento da vida, meu no passado, no presente e futuro, meu porque fizeste e continuas a fazer (mesmo: error hesternus sit tibi doctor hodiernus) de mim alguém sempre melhor. Este excerto é-nos caro, mais do que qualquer um. Eu não sei se te recordas desta noite. Mas sim, é verdade que no limite do medo, do consciente, o pensamento faz com que a memória nos corra em milésimos de segundos. E neste dia, neste ano, 2007, esta noite de 2002 veio-me à memória. As tuas palavras vieram-me à memória e, finalmente, aos 20 anos, percebi o que não tinha entendido aos 15, o que me quiseste mostrar: A verdadeira essência do AMOR. E aos 20anos consegui ver o amor incondicional que havia nos olhos e na alma desta Eva. É por isso, Sérgio, que nunca descarto nem deixo o tempo levar aqueles que são os pilares da minha vida e tu és, seguramente, um deles. Mesmo não te vendo há 9anos, vives diariamente comigo. Assim é a amizade...sem remorsos, sem questões. Simples e pura. E assim te revelo o segredo do dia 28 de Março... :)

Gosto de ti. Mais do que te poder dizer tudo isto é saber que te tenho sempre por perto. Obrigada.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Conversa com um Imperador Romano - III

[Palácio de Cristal - Porto]

Hoje vim em busca de alguma paz. É difícil ser-se ponderado quando não se tem paz no espírito. Não sou hipócrita. A minha paz passa sempre por ambições bélicas, por desordenar a minha ordem. Mas sabes, não é necessariamente mau, sempre tive aversão a tudo o que é convencional. Na verdade sou anti-convenção e não sofro por isso, não quando sei que a minha paz e a minha felicidade são consequência de tudo aquilo que defendo com a verdade.
Agora, estranhamente, nesta procura, tive a ousadia de me convencer que, mais do que ter a sorte de viver, seria ter a sorte de morrer, de me metamorfosear naquilo que acho ser a realidade mais metafísica que alguma vez questionei: A NATUREZA. Já pensaste como tudo seria fantástico se pudessemos reduzir a memória a cheiros, a sentidos? Imagina-te a regeres-te pelo cheiro da terra molhada, pelo sabor do mar, pelo suor de pela imergida em desejo, pelo som das tuas próprias gargalhadas? Como é genial a natureza...
Não acredito na morte, como não acredito na vida como sua opositora. Não sei se acredito na reencarnação, não se, no meu intelecto, o primeiro acto racional for decompor a palavra, for reflectir sobre o étimo. Não, Deus! A gramática refuta sempre as minhas crenças! Mas sim, acredito numa "reen-qualquer-coisa". Acredito que a Terra é um habitat de energia que se dispõe em várias realidades, que essa mesma energia é eterna e que circula desde o início do mundo. SOMOS TODOS ENERGIA. Não temos alma, PSYCHE, temos ENERGIA. Acredito sobretudo que toda a energia é consciente, apenas não pudemos experienciar, ou não nos lembramos, e consequentemente deter a compreensão dessas outras formas de realidade. Sendo assim, é mesmo certo que tudo aquilo que não podemos explicar seja resultado da junção de manifestações conscientes da natureza.
Não receio morrer. Anseio mudar de realidade. Se perdesses alguns minutos a observar a energia de uma árvore, de uma flor, a energia da terra negra, a energia do silêncio...e os cheiros, sempre os cheiros, os cheiros que são a prova de que tudo se movimenta...diz-me, se nos fosse possível, se a consciência humana nos falhasse, aceitarias saltar daqui e desprender-te do teu corpo para te misturares na beleza do brilho do Douro, para te misturares no som das folhas ao vento, para experienciares a verdadeira liberdade que é fazeres parte de uma harmonia indescritível? Vejo-nos daqui a sorrir. A SALTAR.
E hoje, pelo menos hoje, encontraria a paz que vim buscar, imaginando-nos, sem questionar, a cair, a deixar cair o corpo no desconhecido com a certeza que a coragem de saltar foi o mote para uma libertação que tantos questionam e tão "futilmente" abandonam.





"A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação."

Carlos Drummond de Andrade



ARRUMAÇÃO = FUTILIDADE/ MONOTONIA/ BANALIDADE. Persephone

Conversa com um Imperador Romano - II

"E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo."

Vergílio Ferreira in "Aparição"

Às vezes tenho dificuldade em aceitar-te quando, abruptamente, me invades o espelho. Persephone

Poseidon

"Sentado à sua escrivaninha, Poseidon fazia contas. A administração dos oceanos dava-lhe infindável trabalho. Poderia ter tantos auxiliares quantos quisesse e, aliás, tinha muitos, mas, como levasse seu cargo muito a sério, refazia todas as contas, de modo que os auxiliares lhe eram de pouca valia. Não se pode dizer que o trabalho o alegrasse; executava-o, na verdade, apenas porque lhe fora imposto, e tinha mesmo se candidatado diversas vezes a trabalho mais prazeroso — como dizia —, mas, então, sempre que lhe faziam sugestões diversas, verificava-se que nada lhe agradava tanto quanto o cargo que ocupava. Era, de resto, bastante difícil encontrar para ele alguma outra coisa. Afinal, não se podia destinar-lhe, por exemplo, um mar específico: à parte o fato de isso não tornar o trabalho nos cálculos mais fácil, mas apenas menor, o grande Poseidon não podia jamais receber senão um posto de comando absoluto. E, se lhe ofereciam uma posição fora dos oceanos, sentia-se mal só de imaginar, sua respiração divina desordenava-se, a bronzea caixa toráxica punha-se a arfar. De resto, suas queixas não eram de fato levadas a sério; quando um potentado atormenta, há que se tratar de aparentar condescendência, mesmo na mais desesperançada das situações; em realmente destituir Poseidon de seu cargo, ninguém pensava, afinal ele fora destinado desde o princípio dos princípios a ser o deus dos mares, e assim deveria permanecer.
Irritava-o sobretudo — e esta era a causa principal de sua insatisfação com o cargo — ouvir a idéia que faziam dele, quando diziam, por exemplo, que vivia passeando pelas ondas com seu tridente. E, no entanto, permanecia sentado ali, nas profundezas do oceano, fazendo contas sem parar, uma ou outra visita a Júpiter constituindo a única interrupção da monotonia, uma viagem, aliás, da qual, na maioria das vezes, retornava furioso. Assim sendo, pouco ou nada havia visto dos mares, a não ser de forma fugaz, na apressada subida ao Olimpo, mas jamais os tinha percorrido de fato. Costumava dizer que, para tanto, esperaria até o fim do mundo, quando, então, por certo haveria ainda um momento de tranquilidade, no qual, a um instante do fim, e reexaminadas as últimas contas, poderia dar uma rápida voltinha. "


Conto de Franz Kafka

Conversa com um Imperador Romano - I

"A realidade é o nada temeroso. A vida somos nós que a construímos à custa de quimeras, de gritos, de ternura: o mundo pertence-nos: a árvore, a água, o que te rodeia de simples, de belo, ou de trágico, o que te faz viver e o que nos faz viver - tiraste-o da tua própria alma. A realidade é o negrume, o abismo donde só sai o silêncio. O sol foste tu que o criaste - porque a realidade é a treva: a luz nasce dos borbotões de teu ser."

Raul Brandão in "A Farsa"


Detive-me hoje neste parágrafo. Como assim a realidade é o "negrume", o "silêncio", o "abismo", a "treva"? Recuso-me a aceita-lo! Recuso-me a excluir a realidade da minha vida, a excluir esse "negrume", "silêncio", "abismo", "treva", recuso-me a abdicar desse mal, a resignar-me a essa definição! Antónimos, opostos, dicotomias, antíteses...que seria do bem sem o mal, que seria da ordem sem o caos, da guerra sem a paz, da liberdade sem a clausura, que seria do amor sem o ódio? Porque não dar o devido valor a esses mal-amados opositores se o seu papel é fundamental na aprendizagem humana? Diz-me que não estou louca! Achas um paradoxo? Exorcizarias a realidade da tua vida para a tornares mais simples? Não, não o podes fazer, sei que não o farias. Se dissesses que sim, seria como matares a boa fé de um cristão que crê cegamente na ressurreição de Cristo, que dá sentido à vida através dessa crença, pois um dos teus papéis não foi mais do que me fazer crer a mim que, por mais dura que seja a realidade, se formos fiéis a nós próprios, a vitória é "indescritivelmente" sublime. Como te agradeço, querido...
É isso, o sublime depende da relação Homem-Realidade: a aprendizagem é maior, seremos mais sábios, quão melhor soubermos enfrentar a realidade que, consequentemente, quanto mais dura for mais sapiência nos confere.
As isotopias de realidade, então, não podem ser negativas. Brandão estava equivocado! Ou estamos todos quando, inutilmente, associamos estes adjectivos e "culpamo-los", "humilhamo-los" por não compreendermos que tudo reside na atitude humana. Persephone