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segunda-feira, 14 de março de 2011

"(...) Por mais paradoxal que possa ser, não podemos afastar o amor e a morte. Se por um lado o primeiro é o sentimento que move o ser humano, e quando atingido provoca um prazer indescritível, por outro, quando destruído, quando vivido em excesso, quando tido como doença, provoca um sofrimento atroz. Falar de morte depois do amor, falar de amor como forma de morrer, não são somente temas poéticos, literários, artísticos ou de grandes reflexões. A perigosa relação entre ambos está presente na sociedade antiga, moderna, actual e faz-nos questionar afinal qual o real valor do amor e da morte. Orpheu morreu por amar, Jesus Cristo morreu por amar, guerras tiveram como bandeira um amor desmedido por uma pátria, por costumes, crenças e culturas. A afinidade que une o amor à morte é mais do que a libertação. É a consequência, é por vezes o castigo, o que nos poderia fazer questionar se o amor afinal não seria pior do que a morte. Se a morte é o término da vida, em que o sofrimento termina e a paz começa, o amor pode ser estranhamente o começo do sofrimento, seja a curto ou a longo prazo. Poderíamos dizer que o amor será um sentimento falso, ilusório, por vezes mórbido ao trazer uma sensação de prazer inexplicável ao homem e, logo em seguida, causar-lhe tanto tormento. Talvez possamos dizer que o amor sim, é egoísta, que o amor não é libertação. David Mourão-Ferreira faz-nos provar os diferentes sabores desta relação estranha entre estas duas forças primordiais que movem o ser humano e sem dúvida concluir que por muito que se diga sobre elas, sucumbiremos sempre à transcendência que o amor e a sua parceira morte trazem à compreensão humana. (...)"


(Parte da conclusão da minha pseudo-tese sobre AMOR E MORTE EM DAVID MOURÃO-FERREIRA.




“De manhã temendo que me achasses feia, /acordei tremendo deitada na areia, /mas logo os teus olhos disseram que não /e o sol penetrou no meu coração. //Vi depois, numa rocha, uma cruz, /e o teu barco negro dançava na luz; /vi teu braço acenando, entre as velas já soltas. /Dizem as velhas da praia que não voltas... /São loucas! São loucas! //Eu sei, meu amor, /que nem chegaste a partir, /pois tudo em meu redor /me diz que estás sempre comigo. //No vento que lança /areia nos vidros, /na água que canta, /no fogo mortiço, /no calor do leito, /nos bancos vazios, /dentro do meu peito /estás sempre comigo.”

"Barco Negro" David Mourão-Ferreira na voz de Mariza.

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