No outro dia passei por ti. Confesso que tive que parar o carro, sair. Acendi um cigarro e tentei a todo o custo esvaziar a cabeça. A sensação que tinha no corpo, conheço-a de cor. O batimento cardíaco é o mesmo, a ansiedade é a mesma, ambos são iguais àqueles que sinto quando fico defronte a um júri à espera que o silêncio se quebre com música que elegi para fazer mover o corpo, para dar a conhecer emoções. São iguais a quando pisava o palco e perdia o olhar para lá da plateia (e mesmo depois de tanto o pisar, nunca deixei de sentir). São iguais aos que me fazem correr quando toca a sirene… entre tantas outras coisas que me envolvem quando te cruzas no meu olhar, este batimento, esta ansiedade são estrondosas. São os denunciadores de que algo que exige de mim se aproxima, algo extremamente importante que exige a minha crueza, a minha humildade, a minha verdade, aquilo que sou, que amo e para o qual vivo, que exige que seja genuína. Oh, se tu soubesses como eu sou viciada, como eu admiro e procuro tudo aquilo que me causa essa ansiedade, esse batimento, tu compreenderias os meus dias, os meus sorrisos, todos os passos que dou.
Filosofias fáceis descrevem a vida pela sua efemeridade. Outrora também eu julguei que tudo era efémero. Raios!, como me sinto enganada por ter crido e sucumbido em algum instante nessa/ a essa não-verdade. A memória eterniza momentos e sobretudo sentimentos, aqueles que nos coagem a fazer melhores escolhas, a corrigir erros, a reflectir. Em algum momento tudo é eterno, porque assim nos permite a memória, mas não por recordarmos o que passou, não, isso não. Só é eterno, aquilo que, de alguma forma, ainda nos provoca emoções, aquilo que, em algum minuto da nossa existência, nos faz questionar, nos rege as acções. Estas sim, são passageiras. As emoções nunca. Nada pode ser efémero porque a vida um ciclo.
Não questiono o meu dia de amanhã. A semana que vem. Os próximos 20anos. Tu assustas-me. Tu fascinas-me. Às vezes não quero saber de ti. Muitas vezes creio que és idiota, absurdo. Camus dizia que "o absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites"; eu gosto do absurdo que te envolve, que tu envolves, mas gosto sobretudo da minha aversão, que culmina numa paixão, paradoxalmente, por limites ou falta deles. Passo por ti e preciso parar. É uma-qualquer-coisa que eu nunca soube bem explicar. Sempre existiram muitas realidades na minha vida que, de alguma forma, me assustaram. Um misto de apreensão, deslumbramento, duvida, medo e aquilo-que-alguém-chama-de-borboletas-na-barriga. E eu sempre tão tendenciosa (a ambiguidade da palavra sou eu que a faço) para correr atrás dessas “muitas realidades”, daquilo que sempre me foi desconhecido… TU nunca serás efémero. Para a natureza, talvez. Para mim, nunca. Tu és emoções. O plural da palavra deveria só por si explicar a tua complexidade. Há sempre certezas, meu bem. Foi com elas que apaguei o cigarro e segui viagem… com aquela paz de sempre.
Persephone
"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente por serem impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo... O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas..."
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segunda-feira, 27 de junho de 2011
terça-feira, 7 de junho de 2011
Psyche e Eros

"Psyche era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto e era extremamente bela.
A sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões iam admirá-la, assombradas, rendendo-lhe homenagens que só eram devidas à própria Afrodite.
Profundamente ofendida e enciumada, Afrodite enviou seu filho, Eros, para fazê-la apaixonar-se pelo homem mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua beleza, Eros apaixonou-se perdidamente.
O pai de Psyche, suspeitando que havia ofendido os deuses, resolveu consultar o oráculo de Apolo, pois as suas outras filhas encontraram maridos e Psyche permanecia sozinha. Através desse oráculo, o próprio Eros ordenou ao rei que enviasse sua filha ao topo de uma solitária montanha, onde seria desposada por uma terrível serpente.
A jovem, aterrorizada, foi levada ao pé do monte e abandonada por seus pesarosos parentes e amigos.
Conformada com seu destino, Psyche foi tomada por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil de Zéfiro a um lindo vale.Quando acordou caminhou por entre as flores até chegar a um castelo magnífico que só poderia ser a morada de um deus, tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes.
Com coragem entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz.
Chegando a escuridão, foi conduzida pelos criados a um quarto de dormir e, certa que ali encontraria finalmente o seu terrível esposo, começou a tremer quando sentiu que alguém entrara no quarto.No entanto, uma voz maravilhosa a acalmou e sentiu mãos humanas acariciarem seu corpo.
A esse amante misterioso, ela entregou-se.
Quando acordou, já havia chegado o dia e seu amante havia desaparecido, porém essa mesma cena foi repetida por diversas noites.
Enquanto isso, suas irmãs continuavam à sua procura, mas seu esposo misterioso a alertou para não responder aos seus chamados, mas sentindo-se solitária em seu castelo-prisão, implorou ao seu amante para deixa-la ver as suas irmãs ao que cedeu impondo a condição de que, não importando o que suas irmãs dissessem, ela nunca tentaria conhecer sua verdadeira identidade. Quando as irmãs entraram no castelo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, foram tomadas de inveja e notando que o esposo de Psyche nunca aparecia, perguntaram maliciosamente sobre sua identidade, o que aumentou a curiosidade dela. Eros alertou-a que suas irmãs estavam tentando fazer com que ela olhasse seu rosto, mas se assim fizesse, ela nunca mais o veria, além disso, ele contou-lhe que ela estava grávida e se ela conseguisse manter o segredo a criança seria divina, porém se ela falhasse, seria mortal.
Ao receber novamente suas irmãs, Psyche contou-lhes que estava grávida, e que sua criança seria de origem divina deixando-as ainda mais enciumadas com sua situação, pois além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um lindo deus.
Assim, trataram de convencer a jovem a olhar a identidade do esposo pois, se ele estava a esconder o rosto, era porque havia algo de errado com ele. Assustada com o que suas irmãs disseram, escondeu uma faca e uma lâmpada próximo a sua cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido, e se ele fosse realmente um monstro terrível, matá-lo, esquecendo os avisos de seu amante.
À noite, quando Eros descansava ao seu lado, Psyche tomou coragem e aproximou a lâmpada do rosto de seu marido, esperando ver uma horrenda criatura. Para sua surpresa, o que viu deixou-a maravilhada. Um jovem de extrema beleza estava repousando com tamanha quietude e doçura, que ela pensou em acabar com a própria vida por haver dele duvidado.
Enfeitiçada por sua beleza, demorou-se admirando o deus alado. Não percebeu que havia inclinado de tal maneira a lâmpada que uma gota de óleo quente caiu sobre o ombro direito de Eros, acordando-o. Eros olhou-a assustado, e voou pela janela do quarto, dizendo:
- “Tola Psyche! É assim que retribuis o meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu julgavas-me um monstro e estavas disposta a cortar a minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir. Não te imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita.”
Quando se recompôs, notou que o lindo castelo à sua volta desaparecera, e que se encontrava bem próxima da casa de seus pais. Psyche ficou inconsolável. Tentou suicidar-se atirando-se em um rio próximo, mas suas águas a trouxeram gentilmente para sua margem. Foi então alertada por Pan, que lhe disse para esquecer o que se passou e procurar novamente ganhar o amor de Eros.
Por sua vez, quando suas irmãs souberam do sucedido, fingiram pesar, mas vão com Psyche para o topo da montanha, pensando em conquistar o amor de Eros. Lá chegando, chamaram o vento Zéfiro, para que as sustentasse no ar e as levasse até Eros. Zéfiro desta vez não as ergueram no céu, e elas caíram no despenhadeiro, morrendo.
Psyche, resolvida a reconquistar a confiança do marido, saiu à sua procura por todos os lugares da terra, dia e noite, até que chegou a um templo no alto de uma montanha.
Com esperança de lá encontrar o amado, entrou no templo e viu uma grande confusão de grãos de trigo e cevada, ancinhos e foices espalhados por todo o recinto. Convencida que não devia negligenciar o culto a nenhuma divindade, pôs-se a arrumar aquela desordem, colocando cada coisa em seu lugar.
Deméter, para quem aquele templo era destinado, ficou profundamente grata e disse-lhe:
- “Psyche, embora não possa livrar-vos da ira de Afrodite, posso ensinar-vos a fazê-lo com suas próprias forças: ide ao seu templo e fazei a ela as homenagens que ela, como deusa, merece.”
Afrodite, ao recebê-la em seu templo, não esconde sua raiva. Afinal, por aquela reles mortal seu filho havia desobedecido suas ordens e agora ele encontrava-se no leito, recuperando-se da ferida por ela causada.
Como condição para o seu perdão, a deusa impôs uma série de tarefas que deveria realizar, tarefas tão difíceis que poderiam causar sua morte.
Primeiramente, deveria, antes do anoitecer, separar uma grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada, feijões e lentilhas. Psyche ficou assustada diante de tanto trabalho, porém uma formiga que estava próxima, ficou comovida com a tristeza da jovem e convocou seu exército a isolar cada uma das qualidades de grão.
Como Segunda tarefa, Afrodite ordenou que fosse até as margens de um rio onde ovelhas de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada carneiro. Psyche estava disposta a cruzar o rio quando ouviu um junco dizer que não atravessasse as águas do rio até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente, quando ela poderia aproveitar e cortar sua lã. De outro modo, seria atacada e morta pelos carneiros. Dito isto, ela esperou até o sol ficar bem alto no horizonte, atravessou o rio e levou a Afrodite uma grande quantidade de lã dourada.
Sua terceira tarefa seria subir ao topo de uma alta montanha e trazer para Afrodite uma jarra cheia com a água escura que jorrava de seu cume. Mas no meio dos perigos que Psyche enfrentou, estava um dragão que guardava a fonte, que foi rapidamente ultrapassado com a ajuda de uma grande águia, que voou baixo próximo a fonte e encheu a jarra com a negra água.
Irada com o sucesso da jovem, Afrodite planeou uma última, porém fatal, tarefa. Psyche deveria descer ao mundo inferior e pedir a Persephone que lhe desse um pouco de sua própria beleza, que deveria guardar numa caixa. Desesperada, subiu ao topo de uma elevada torre e quis atirar-se, para assim poder alcançar o mundo subterrâneo. A torre, porém, murmurou instruções de como entrar em uma particular caverna para alcançar o reino de Hades. Ensinou-lhe ainda como ultrapassar os diversos perigos da jornada, como o cão Cérbero, e deu-lhe uma moeda para pagar a Caronte pela travessia do rio Estige, advertindo-a:
- “Quando Persephone vos der a caixa com sua beleza, tomai o cuidado, maior que todas as outras coisas, de não olhar dentro da caixa, pois a beleza dos deuses não cabe a olhos mortais.”
Seguindo essas palavras, conseguiu chegar até Persephone, que estava sentada imponente em seu trono e recebeu dela a caixa com o precioso tesouro. Tomada, porém, pela curiosidade no seu retorno, abriu a caixa para ver. Ao invés de beleza havia apenas um sono terrível que dela se apoderou.
Eros, curado de sua ferida, voou ao socorro de Psyche e conseguiu colocar o sono novamente na caixa, salvando-a.
Lembrou-lhe novamente que a sua curiosidade havia novamente sido sua grande fraqueza, mas que agora podia apresentar-se à Afrodite e cumprir a tarefa.
Enquanto isso, Eros foi ao encontro de Zeus e implorou a ele que apaziguasse a ira de Afrodite e repensasse o seu casamento com Psyche.
Atendendo seu pedido, o grande deus do Olimpo ordenou que Hermes conduzisse a jovem à assembleia dos deuses e a ela foi oferecida uma taça de ambrósias.
Então com toda a cerimónia, Eros casou-se com Psyche, e no devido tempo nasceu seu filho, chamado Voluptas (Prazer)."
Psyche tornou-se imortal, deusa da alma.
Psyche - Alma; Logos - Estudo. Psicologia- Estudo da "alma"
:)
sexta-feira, 20 de maio de 2011
(...) da porta Inês via Henrique no telhado. Aquele sítio mágico, com uma entrada privilegiada para o sótão onde ela se perdera tantas horas contemplando relíquias de outrora, aquele sítio onde tantas vezes se escondera para atingir Tiago "mortiferamente" com uma flecha nas suas brincadeiras de criança. O telhado era plano, como uma varanda. Era amplo e virado para o sol, virado para todos os lados da casa. De cima via-se o pátio, todas as janelas e um longo campo verde. O Inverno já havia começado, e estava muito escuro. Subiu as escadas - lembrou-se de Ana ali sentada, a desenhar; sempre soube que seria uma grande artista - em cada degrau uma memória, memória que só ela tinha e que queria desesperadamente partilhar com aquele estranho.
- O céu está lindo! - disse.
Henrique voltou-se e sorriu. - é verdade... - respondeu. Inês continuou:
- Quando era mais nova queria muito ser astrónoma, mas nunca me dei muito bem com a matemática e com a física. Penso não, decididamente a minha área são as letras.
As palavras enrolavam-se nos lábios, eram tão inúteis como a sua pressa. Havia algo nele que não a deixava pensar, havia algo que a fazia quase perder os sentidos. As pernas tremiam e ela não o conseguia olhar. Inês tinha a força de um exército mas era frágil como cristal. A sua ambição era poderosa mas a sua sensibilidade cruzava-lhe os caminhos. Henrique, lentamente, encostou o seu peito às costas dela e abraçou-a. Fez-se silêncio e ambos os rostos olharam o céu. A sensação era indescritível, sentiu-se fraca, pequena, loucamente apaixonada e de novo amaldiçoou o tempo por não parar, por não a fazer morrer naqueles braços (...)
- Obrigada por estares aqui... - disse-lhe.
- Se não tivesse vindo não aguentaria. É muito difícil lutar contra a saudade. Penso em ti dia e noite e escrevo. Sinto tanto a falta do teu sorriso...
Inês interrompeu-o de fúria e êxtase virando-se, frente a frente. Segurou-lhe o rosto com firmeza, como se entre as suas mãos estivesse o seu próprio coração: - E eu do teu, meu amor. De te abraçar, de te olhar, só de te olhar... - cravou os olhos nos dele - Amo-te tanto que corro o risco de enlouquecer. Estás no meu pensamento a todo o instante, sufoco quando anseio beijar-te e não posso, quando quero chamar por ti e estás tão longe...quero-te tanto...
Todo o corpo tremia agora...a alma também. Prosseguiu num pedido em desespero:
- Quero morrer primeiro que tu. Não aguentaria sofrer a tua ausência. - aquela ruga que Henrique tinha na testa, entre os olhos, de quem perdeu noites questionando-se, de quem observou doentiamente cada passo em seu redor, de quem tentou responder às angústias da juventude, desfez-se. Inês sentiu a sua mão quente arrumar, suavemente, uma madeixa de cabelo e a regressar, pelo mesmo caminho, ao seu rosto aflito. Henrique abraçou-a e ao ouvido desarmou-a subtilmente:
- Eu, se pudesse escolher, também preferia que partisses primeiro. O meu sofrimento eu aguentava, mas nunca aguentaria ver-te sofrer quando eu tivesse que me separar de ti...
Inês gelou e, enraivecida, empurrou Henrique. Apertou a cabeça num gesto de negação, e um turbilhão de emoções saltaram-lhe à boca. Rapidamente se misturaram a admiração e o espanto com a revolta e a sensação de egoísmo. Como podia ele conhece-la tão bem? Como sabia ele o quanto o amor lhe significava? Como poderia alguém tão altruísta amar uma mulher assim? Pior, como ousara ela ser tão egoísta? Ela, logo ela que punha tanta intensidade nas mãos sempre que se entregava? Não, não podia aceitar tamanho acto de desamor vindo de si mesma. Olhou Henrique cheia de lágrimas, lágrimas de arrependimento. Tinha os olhos grandes e castanhos que buscavam os dele numa procura de perdão desesperado. As pernas já não tremiam, deixaram apenas de lhe obedecer. Inês deambulava naquele telhado, sem norte, apertando a cabeça e pedindo perdão.
Estava frio, tanto frio ali e ambos ardiam numa paixão insana que nem as palavras destronavam - era urgente agir.
Henrique agarrou o braço de Inês e firmemente puxou-a para si gritando-lhe: - Olha para mim, amor! A respiração ofegante foi cedendo e ele sussurrou-lhe:
- Eu amo-te. E é assim que te quero. O que tens dentro de ti é lindo e é isso que me faz feliz. Tu fazes-me feliz.
- Afinal não sei amar. - respondeu derrotada.
- A tua inocência é pura e enternece-me. Tu vais crescer, e vais crescer comigo. Juntos.
Henrique apertou-a num beijo. Um beijo que, a ambos, soube a paz, a uma eterna confiança, a uma feliz esperança e a fogo, como todos os outros, como se fosse sempre o primeiro.
- Meninos, venham jantar!
Era a mesma voz, a mesma voz que odiou em criança sempre que interrompia as brincadeiras, e que agora odiava de novo.
Deram-se as mãos. Nascia a certeza da eternidade. (...)
Excerto do meu livro "A dor por trás do pano preto"
2004
A maior lição que levo para a vida.
Nem este excerto, nem a ligação com esta foto estão aqui por acaso, meu querido. No fundo, quis apenas dizer-te que és, mais do que tudo, meu. Meu na memória, meu em algum momento da vida, meu no passado, no presente e futuro, meu porque fizeste e continuas a fazer (mesmo: error hesternus sit tibi doctor hodiernus) de mim alguém sempre melhor. Este excerto é-nos caro, mais do que qualquer um. Eu não sei se te recordas desta noite. Mas sim, é verdade que no limite do medo, do consciente, o pensamento faz com que a memória nos corra em milésimos de segundos. E neste dia, neste ano, 2007, esta noite de 2002 veio-me à memória. As tuas palavras vieram-me à memória e, finalmente, aos 20 anos, percebi o que não tinha entendido aos 15, o que me quiseste mostrar: A verdadeira essência do AMOR. E aos 20anos consegui ver o amor incondicional que havia nos olhos e na alma desta Eva. É por isso, Sérgio, que nunca descarto nem deixo o tempo levar aqueles que são os pilares da minha vida e tu és, seguramente, um deles. Mesmo não te vendo há 9anos, vives diariamente comigo. Assim é a amizade...sem remorsos, sem questões. Simples e pura. E assim te revelo o segredo do dia 28 de Março... :)
Gosto de ti. Mais do que te poder dizer tudo isto é saber que te tenho sempre por perto. Obrigada.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Conversa com um Imperador Romano - III
[Palácio de Cristal - Porto]
Hoje vim em busca de alguma paz. É difícil ser-se ponderado quando não se tem paz no espírito. Não sou hipócrita. A minha paz passa sempre por ambições bélicas, por desordenar a minha ordem. Mas sabes, não é necessariamente mau, sempre tive aversão a tudo o que é convencional. Na verdade sou anti-convenção e não sofro por isso, não quando sei que a minha paz e a minha felicidade são consequência de tudo aquilo que defendo com a verdade.
Agora, estranhamente, nesta procura, tive a ousadia de me convencer que, mais do que ter a sorte de viver, seria ter a sorte de morrer, de me metamorfosear naquilo que acho ser a realidade mais metafísica que alguma vez questionei: A NATUREZA. Já pensaste como tudo seria fantástico se pudessemos reduzir a memória a cheiros, a sentidos? Imagina-te a regeres-te pelo cheiro da terra molhada, pelo sabor do mar, pelo suor de pela imergida em desejo, pelo som das tuas próprias gargalhadas? Como é genial a natureza...
Não acredito na morte, como não acredito na vida como sua opositora. Não sei se acredito na reencarnação, não se, no meu intelecto, o primeiro acto racional for decompor a palavra, for reflectir sobre o étimo. Não, Deus! A gramática refuta sempre as minhas crenças! Mas sim, acredito numa "reen-qualquer-coisa". Acredito que a Terra é um habitat de energia que se dispõe em várias realidades, que essa mesma energia é eterna e que circula desde o início do mundo. SOMOS TODOS ENERGIA. Não temos alma, PSYCHE, temos ENERGIA. Acredito sobretudo que toda a energia é consciente, apenas não pudemos experienciar, ou não nos lembramos, e consequentemente deter a compreensão dessas outras formas de realidade. Sendo assim, é mesmo certo que tudo aquilo que não podemos explicar seja resultado da junção de manifestações conscientes da natureza.
Não receio morrer. Anseio mudar de realidade. Se perdesses alguns minutos a observar a energia de uma árvore, de uma flor, a energia da terra negra, a energia do silêncio...e os cheiros, sempre os cheiros, os cheiros que são a prova de que tudo se movimenta...diz-me, se nos fosse possível, se a consciência humana nos falhasse, aceitarias saltar daqui e desprender-te do teu corpo para te misturares na beleza do brilho do Douro, para te misturares no som das folhas ao vento, para experienciares a verdadeira liberdade que é fazeres parte de uma harmonia indescritível? Vejo-nos daqui a sorrir. A SALTAR.
E hoje, pelo menos hoje, encontraria a paz que vim buscar, imaginando-nos, sem questionar, a cair, a deixar cair o corpo no desconhecido com a certeza que a coragem de saltar foi o mote para uma libertação que tantos questionam e tão "futilmente" abandonam.
"A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação."
Carlos Drummond de Andrade
ARRUMAÇÃO = FUTILIDADE/ MONOTONIA/ BANALIDADE. Persephone
Hoje vim em busca de alguma paz. É difícil ser-se ponderado quando não se tem paz no espírito. Não sou hipócrita. A minha paz passa sempre por ambições bélicas, por desordenar a minha ordem. Mas sabes, não é necessariamente mau, sempre tive aversão a tudo o que é convencional. Na verdade sou anti-convenção e não sofro por isso, não quando sei que a minha paz e a minha felicidade são consequência de tudo aquilo que defendo com a verdade.
Agora, estranhamente, nesta procura, tive a ousadia de me convencer que, mais do que ter a sorte de viver, seria ter a sorte de morrer, de me metamorfosear naquilo que acho ser a realidade mais metafísica que alguma vez questionei: A NATUREZA. Já pensaste como tudo seria fantástico se pudessemos reduzir a memória a cheiros, a sentidos? Imagina-te a regeres-te pelo cheiro da terra molhada, pelo sabor do mar, pelo suor de pela imergida em desejo, pelo som das tuas próprias gargalhadas? Como é genial a natureza...
Não acredito na morte, como não acredito na vida como sua opositora. Não sei se acredito na reencarnação, não se, no meu intelecto, o primeiro acto racional for decompor a palavra, for reflectir sobre o étimo. Não, Deus! A gramática refuta sempre as minhas crenças! Mas sim, acredito numa "reen-qualquer-coisa". Acredito que a Terra é um habitat de energia que se dispõe em várias realidades, que essa mesma energia é eterna e que circula desde o início do mundo. SOMOS TODOS ENERGIA. Não temos alma, PSYCHE, temos ENERGIA. Acredito sobretudo que toda a energia é consciente, apenas não pudemos experienciar, ou não nos lembramos, e consequentemente deter a compreensão dessas outras formas de realidade. Sendo assim, é mesmo certo que tudo aquilo que não podemos explicar seja resultado da junção de manifestações conscientes da natureza.
Não receio morrer. Anseio mudar de realidade. Se perdesses alguns minutos a observar a energia de uma árvore, de uma flor, a energia da terra negra, a energia do silêncio...e os cheiros, sempre os cheiros, os cheiros que são a prova de que tudo se movimenta...diz-me, se nos fosse possível, se a consciência humana nos falhasse, aceitarias saltar daqui e desprender-te do teu corpo para te misturares na beleza do brilho do Douro, para te misturares no som das folhas ao vento, para experienciares a verdadeira liberdade que é fazeres parte de uma harmonia indescritível? Vejo-nos daqui a sorrir. A SALTAR.
E hoje, pelo menos hoje, encontraria a paz que vim buscar, imaginando-nos, sem questionar, a cair, a deixar cair o corpo no desconhecido com a certeza que a coragem de saltar foi o mote para uma libertação que tantos questionam e tão "futilmente" abandonam.
"A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação."
Carlos Drummond de Andrade
ARRUMAÇÃO = FUTILIDADE/ MONOTONIA/ BANALIDADE. Persephone
Conversa com um Imperador Romano - II
"E vi, vi os olhos, a face desse alguém que me habitava, que me era e eu jamais imaginara. Pela primeira vez eu tinha o alarme dessa viva realidade que era eu, desse ser vivo que até então vivera comigo na absoluta indiferença de apenas ser e em que agora descobria qualquer coisa mais, que me excedia e me metia medo."
Vergílio Ferreira in "Aparição"
Às vezes tenho dificuldade em aceitar-te quando, abruptamente, me invades o espelho. Persephone
Vergílio Ferreira in "Aparição"
Às vezes tenho dificuldade em aceitar-te quando, abruptamente, me invades o espelho. Persephone
Poseidon
"Sentado à sua escrivaninha, Poseidon fazia contas. A administração dos oceanos dava-lhe infindável trabalho. Poderia ter tantos auxiliares quantos quisesse e, aliás, tinha muitos, mas, como levasse seu cargo muito a sério, refazia todas as contas, de modo que os auxiliares lhe eram de pouca valia. Não se pode dizer que o trabalho o alegrasse; executava-o, na verdade, apenas porque lhe fora imposto, e tinha mesmo se candidatado diversas vezes a trabalho mais prazeroso — como dizia —, mas, então, sempre que lhe faziam sugestões diversas, verificava-se que nada lhe agradava tanto quanto o cargo que ocupava. Era, de resto, bastante difícil encontrar para ele alguma outra coisa. Afinal, não se podia destinar-lhe, por exemplo, um mar específico: à parte o fato de isso não tornar o trabalho nos cálculos mais fácil, mas apenas menor, o grande Poseidon não podia jamais receber senão um posto de comando absoluto. E, se lhe ofereciam uma posição fora dos oceanos, sentia-se mal só de imaginar, sua respiração divina desordenava-se, a bronzea caixa toráxica punha-se a arfar. De resto, suas queixas não eram de fato levadas a sério; quando um potentado atormenta, há que se tratar de aparentar condescendência, mesmo na mais desesperançada das situações; em realmente destituir Poseidon de seu cargo, ninguém pensava, afinal ele fora destinado desde o princípio dos princípios a ser o deus dos mares, e assim deveria permanecer.
Irritava-o sobretudo — e esta era a causa principal de sua insatisfação com o cargo — ouvir a idéia que faziam dele, quando diziam, por exemplo, que vivia passeando pelas ondas com seu tridente. E, no entanto, permanecia sentado ali, nas profundezas do oceano, fazendo contas sem parar, uma ou outra visita a Júpiter constituindo a única interrupção da monotonia, uma viagem, aliás, da qual, na maioria das vezes, retornava furioso. Assim sendo, pouco ou nada havia visto dos mares, a não ser de forma fugaz, na apressada subida ao Olimpo, mas jamais os tinha percorrido de fato. Costumava dizer que, para tanto, esperaria até o fim do mundo, quando, então, por certo haveria ainda um momento de tranquilidade, no qual, a um instante do fim, e reexaminadas as últimas contas, poderia dar uma rápida voltinha. "
Conto de Franz Kafka
Irritava-o sobretudo — e esta era a causa principal de sua insatisfação com o cargo — ouvir a idéia que faziam dele, quando diziam, por exemplo, que vivia passeando pelas ondas com seu tridente. E, no entanto, permanecia sentado ali, nas profundezas do oceano, fazendo contas sem parar, uma ou outra visita a Júpiter constituindo a única interrupção da monotonia, uma viagem, aliás, da qual, na maioria das vezes, retornava furioso. Assim sendo, pouco ou nada havia visto dos mares, a não ser de forma fugaz, na apressada subida ao Olimpo, mas jamais os tinha percorrido de fato. Costumava dizer que, para tanto, esperaria até o fim do mundo, quando, então, por certo haveria ainda um momento de tranquilidade, no qual, a um instante do fim, e reexaminadas as últimas contas, poderia dar uma rápida voltinha. "
Conto de Franz Kafka
Conversa com um Imperador Romano - I
"A realidade é o nada temeroso. A vida somos nós que a construímos à custa de quimeras, de gritos, de ternura: o mundo pertence-nos: a árvore, a água, o que te rodeia de simples, de belo, ou de trágico, o que te faz viver e o que nos faz viver - tiraste-o da tua própria alma. A realidade é o negrume, o abismo donde só sai o silêncio. O sol foste tu que o criaste - porque a realidade é a treva: a luz nasce dos borbotões de teu ser."
Raul Brandão in "A Farsa"
Detive-me hoje neste parágrafo. Como assim a realidade é o "negrume", o "silêncio", o "abismo", a "treva"? Recuso-me a aceita-lo! Recuso-me a excluir a realidade da minha vida, a excluir esse "negrume", "silêncio", "abismo", "treva", recuso-me a abdicar desse mal, a resignar-me a essa definição! Antónimos, opostos, dicotomias, antíteses...que seria do bem sem o mal, que seria da ordem sem o caos, da guerra sem a paz, da liberdade sem a clausura, que seria do amor sem o ódio? Porque não dar o devido valor a esses mal-amados opositores se o seu papel é fundamental na aprendizagem humana? Diz-me que não estou louca! Achas um paradoxo? Exorcizarias a realidade da tua vida para a tornares mais simples? Não, não o podes fazer, sei que não o farias. Se dissesses que sim, seria como matares a boa fé de um cristão que crê cegamente na ressurreição de Cristo, que dá sentido à vida através dessa crença, pois um dos teus papéis não foi mais do que me fazer crer a mim que, por mais dura que seja a realidade, se formos fiéis a nós próprios, a vitória é "indescritivelmente" sublime. Como te agradeço, querido...
É isso, o sublime depende da relação Homem-Realidade: a aprendizagem é maior, seremos mais sábios, quão melhor soubermos enfrentar a realidade que, consequentemente, quanto mais dura for mais sapiência nos confere.
As isotopias de realidade, então, não podem ser negativas. Brandão estava equivocado! Ou estamos todos quando, inutilmente, associamos estes adjectivos e "culpamo-los", "humilhamo-los" por não compreendermos que tudo reside na atitude humana. Persephone
Raul Brandão in "A Farsa"
Detive-me hoje neste parágrafo. Como assim a realidade é o "negrume", o "silêncio", o "abismo", a "treva"? Recuso-me a aceita-lo! Recuso-me a excluir a realidade da minha vida, a excluir esse "negrume", "silêncio", "abismo", "treva", recuso-me a abdicar desse mal, a resignar-me a essa definição! Antónimos, opostos, dicotomias, antíteses...que seria do bem sem o mal, que seria da ordem sem o caos, da guerra sem a paz, da liberdade sem a clausura, que seria do amor sem o ódio? Porque não dar o devido valor a esses mal-amados opositores se o seu papel é fundamental na aprendizagem humana? Diz-me que não estou louca! Achas um paradoxo? Exorcizarias a realidade da tua vida para a tornares mais simples? Não, não o podes fazer, sei que não o farias. Se dissesses que sim, seria como matares a boa fé de um cristão que crê cegamente na ressurreição de Cristo, que dá sentido à vida através dessa crença, pois um dos teus papéis não foi mais do que me fazer crer a mim que, por mais dura que seja a realidade, se formos fiéis a nós próprios, a vitória é "indescritivelmente" sublime. Como te agradeço, querido...
É isso, o sublime depende da relação Homem-Realidade: a aprendizagem é maior, seremos mais sábios, quão melhor soubermos enfrentar a realidade que, consequentemente, quanto mais dura for mais sapiência nos confere.
As isotopias de realidade, então, não podem ser negativas. Brandão estava equivocado! Ou estamos todos quando, inutilmente, associamos estes adjectivos e "culpamo-los", "humilhamo-los" por não compreendermos que tudo reside na atitude humana. Persephone
segunda-feira, 21 de março de 2011
"A tua ausência é, em cada momento, a tua ausência. Não esqueço que os teus lábios existem longe de mim. Aqui há casas vazias. Há cidades desertas. Há lugares. Mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho tanta pena de perder um instante dos teus cabelos. Aqui não há palavras. Há a tua ausência. Há o medo sem os teus lábios, sem os teus cabelos. Fecho os olhos para te ver e para não chorar."
José Luís Peixoto
José Luís Peixoto
segunda-feira, 14 de março de 2011
"(...) Por mais paradoxal que possa ser, não podemos afastar o amor e a morte. Se por um lado o primeiro é o sentimento que move o ser humano, e quando atingido provoca um prazer indescritível, por outro, quando destruído, quando vivido em excesso, quando tido como doença, provoca um sofrimento atroz. Falar de morte depois do amor, falar de amor como forma de morrer, não são somente temas poéticos, literários, artísticos ou de grandes reflexões. A perigosa relação entre ambos está presente na sociedade antiga, moderna, actual e faz-nos questionar afinal qual o real valor do amor e da morte. Orpheu morreu por amar, Jesus Cristo morreu por amar, guerras tiveram como bandeira um amor desmedido por uma pátria, por costumes, crenças e culturas. A afinidade que une o amor à morte é mais do que a libertação. É a consequência, é por vezes o castigo, o que nos poderia fazer questionar se o amor afinal não seria pior do que a morte. Se a morte é o término da vida, em que o sofrimento termina e a paz começa, o amor pode ser estranhamente o começo do sofrimento, seja a curto ou a longo prazo. Poderíamos dizer que o amor será um sentimento falso, ilusório, por vezes mórbido ao trazer uma sensação de prazer inexplicável ao homem e, logo em seguida, causar-lhe tanto tormento. Talvez possamos dizer que o amor sim, é egoísta, que o amor não é libertação. David Mourão-Ferreira faz-nos provar os diferentes sabores desta relação estranha entre estas duas forças primordiais que movem o ser humano e sem dúvida concluir que por muito que se diga sobre elas, sucumbiremos sempre à transcendência que o amor e a sua parceira morte trazem à compreensão humana. (...)"
(Parte da conclusão da minha pseudo-tese sobre AMOR E MORTE EM DAVID MOURÃO-FERREIRA.
“De manhã temendo que me achasses feia, /acordei tremendo deitada na areia, /mas logo os teus olhos disseram que não /e o sol penetrou no meu coração. //Vi depois, numa rocha, uma cruz, /e o teu barco negro dançava na luz; /vi teu braço acenando, entre as velas já soltas. /Dizem as velhas da praia que não voltas... /São loucas! São loucas! //Eu sei, meu amor, /que nem chegaste a partir, /pois tudo em meu redor /me diz que estás sempre comigo. //No vento que lança /areia nos vidros, /na água que canta, /no fogo mortiço, /no calor do leito, /nos bancos vazios, /dentro do meu peito /estás sempre comigo.”
"Barco Negro" David Mourão-Ferreira na voz de Mariza.
(Parte da conclusão da minha pseudo-tese sobre AMOR E MORTE EM DAVID MOURÃO-FERREIRA.
“De manhã temendo que me achasses feia, /acordei tremendo deitada na areia, /mas logo os teus olhos disseram que não /e o sol penetrou no meu coração. //Vi depois, numa rocha, uma cruz, /e o teu barco negro dançava na luz; /vi teu braço acenando, entre as velas já soltas. /Dizem as velhas da praia que não voltas... /São loucas! São loucas! //Eu sei, meu amor, /que nem chegaste a partir, /pois tudo em meu redor /me diz que estás sempre comigo. //No vento que lança /areia nos vidros, /na água que canta, /no fogo mortiço, /no calor do leito, /nos bancos vazios, /dentro do meu peito /estás sempre comigo.”
"Barco Negro" David Mourão-Ferreira na voz de Mariza.
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