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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A ti, Joana

Sinto que a minha vida teria sido diferente se tivesse ficado aí contigo, Joana. Não, não seria feliz no amor. Esse terá sido o maior erro, fugir por amor. Não me condeno por isso, mas precisei de te esquecer. Sabes, ninguém permaneceu na minha vida como eu queria. Podia ter tido alguém que tivesse vivido toda a minha infância comigo, que tivesse começado a cantar e a dançar em frente ao espelho, que corresse todas as estradas de patins e de bicicleta, que não visse as horas a passar...e tive...a vida separou-nos...
podia ter tido alguém que vivesse comigo a minha pré-adolescência, que me visse maquilhar a primeira vez, que começasse a viver esse amor pela dança tão intensamente como eu, que me ouvisse cantar, que soubesse do meu primeiro beijo, que não se quisesse separar de mim e eu dela...e tive...a vida separou-nos...podia ter tido alguém que vivesse comigo a minha adolescência...que estivesse lá nas minhas primeiras grandes quedas, no primeiro impacto da responsabilidade, do sentido da existência, das lágrimas, da primeira depressão, do primeiro amor, da primeira vez...e tive, mas a vida separou-nos mais uma vez...
Depois apareceste tu, Joana. Apareceste tu. Ninguém sabe da tua existência na minha vida, porque eu quis esquecer-te. Eu sei que me conheces bem, por isso também sei que tu sabes o quanto vivo cada momento intensamente e o quanto reflicto sobre as mais pequenas coisas. Consequentemente, sabes que só te podia tentar esquecer, apagar, por puro egoísmo, por não querer mais uma página ausente de um ser. Erámos tão inseguras, tão inocentes. Lembras-te? Eu podia perdoar-te. Eu podia perdoar-me.
Hoje, neste preciso momento precisava que me dissesses que eu nunca cresci, que eu não sou mulher, precisava que me dissesses que eu não tenho consciência do mundo e que estes anos não passaram na minha vida...Seria mesmo feliz quando arrastava as caudas dos meus vestidos pretos pelas escadas daquela parada? Eu costumava achar que toda aquela pedra fria daquele velho quartel condizia comigo...Eu era só a miúda de negro que ouvia metal e estudava literatura. Gostava do estatuto, ninguém se preocupava em saber mais...eu sim, tinha paz. Uma paz tão aparente que quando tirou a máscara levou-me para longe. Demasiado longe de mim. Achas que eu sempre soube o que sou? Diz-me tu se eu já fui feliz, diz-me que tudo o que vi fez de mim alguém melhor. Já não és. Já não somos. Isso assusta-me. Assusta-me a partilha tornar-se vazio e com o tempo ausência e indiferença. Será por isso que sou emotiva? Será por isso que sou impulsiva? Inocente? Infantil? Incoerente? Eu sei que tu sabes, diz-me se dou demasiada importância aos valores? Devia dar mais? Diz-me se é um erro. Como das vezes que me encostava a ti e tu cantavas comigo a música das galinhas e logo a seguir me chamavas criança. Será por isso? Será que os meus valores estão errados? Às vezes odeio-te. Só porque me lembro de ti e porque os anos passaram e eu posso agora dizer "podia ter tido alguém que me acompanhasse na minha juventude, que me visse realizar os meus primeiros sonhos como mulher, que me visse afirmar-me, a ter responsabilidades, a formar-me como pessoa, que fosse minha cúmplice a toda a hora e gostasse de todos os meus defeitos incondicionalmente...e tive...mas a vida separou-nos, Joana"... e eu não posso fazer nada...



Não sabes como doí, como lamento. És um segredo só meu. Esqueci-te.
Acredita que gosto muito de ti.







Um beijo

9 comentários:

Anónimo disse...

Estúpidas, pá! Sabes que este texto podia ter sido escrito por mim?
Amo-te, rapariga.


(E não sei dizer mais nada.)


Joana. A TUA Joana.

Anónimo disse...

Podia ter sido escrito por mim quase na totalidade. Digo.

Em termos de pessoas vivas (lol), foste a minha maior perda. É verdade.


Sabes? No outro dia, fui à ubi. Já lá não estou, não sei se te tinha dito. E estive na sentada, sozinha,num banco, na Parada. Quase não havia ali ninguém. Só caloirada e assim. Ninguém que eu conhecesse. E pensei em ti. Como pensava em ti no segundo ano, quando te imaginava ali comigo. Em cada banco. Em cada canção que eu já não cantava. Pensei em ti. Acho que o nosso 1º abraço foi dado na Parada. Lembro-me. Aliás, um semi-abraço. Não nos sei assim tão epidérmicas. Foi no início do ano, logo. E tu estavas assustada (não vou dar aqui mais pormenores :P). E eu semi-abracei-te. A amizade materializou-se aí. Acho eu. Pelo menos, não tenho lembranças mais remotas de manifestações mútuas de amizade contigo. Tenho saudades tuas, Ana. Tenho sempre saudades tuas. Ainda.
Foste uma das pessoas mais especiais da minha vida. Odiei-te muito, é verdade, mas creio que te amei, que te amo muito mais. Se foste isso tudo que dizes no texto? Provavelmente sim. Mas não te preocupes. Eu tb não me preocupo. Eu fui tudo aquilo contigo. Tudo. E não me arrependo. E quero que tu não te arrependas. Não éramos felizes, Ana? Claro que éramos felizes.

Não estou nada magoada com este texto. Amei cada palavra. Agradeço-te por isso. Por escreveres sempre tão bem e por este texto me ter trazido coisas tão boas. Agradeço-te de uma froma muito especial a lembrança das galinhas. :P Que está sempre comigo quando oiço a canção. Quando a canto sozinha. Porque ninguém mais a cantou comigo. Porque ai de alguém que a queira cantar comigo. Agradeço-te também ETERNAMENTE por aquele amor mútuo.

Um dia, alguém disse que nós somos muito parecidas. É capaz de ser isso.





Este texto fez me feliz. Com as memórias.

Éramos felizes, Ana.



Joana. A tua Joana.

Anónimo disse...

Nunca me esqueci de ti. E apesar da quase década que nos separa, poucas foram as que encontrei como tu. Não duvides daquilo que és, nunca. Tu és das pessoas mais belas e complexas que já conheci porque és humana, és tão Humana. A minha condição naquela altura não me permitia segurar-te as quedas, mas chegaste longe sozinha e sempre que te vejo arrependo-me daquele dia, aquele dia em que não te beijei. Eu sei, já falamos disso...só quero que saibas que continuas bela como sempre foste. Algum dia eu sei...

Beijos

Henrik disse...

Se dói e ainda sobrevives é porque doerá e sobreviverás. Se houvesse estrada com migalhas visíveis cada um sabia o trilho a seguir, alguém as apagou (será que alguma vez as houve?) e assim inventamos os nossos valores e os nossos passos após os termos dado. Não inventamos nada de novo, nem os valores nem os passos, mas criamos algo de novo: a ilusão de que saberemos algo mais sobre nós e o mundo um dia. A ilusão ou a esperança. Acho que algum dia te disse (ou alguém mo disse, ou assim o cri pois houve épocas em que não o distingui) que a esperança matava, sim, de facto mata, mas também a vida!
Beijo.

Anónimo disse...

Rapariga, actualiza lá o estaminé, sff.

Beijinhos. Adoro-te. Tanto.Tanto.

A TUA Joana

Persephone disse...

Não é nem será uma ilusão nunca, Sérgio. Se de facto o fosse, nunca nos tornaríamos pessoas melhores e nunca aprenderíamos com todos os erros. Ou queres que te fale dos teus 19anos?
Não, não é nem será uma ilusão.
Um beijo

Henrik disse...

Ah e quão iludido estava aos 19 anos...e quão iludido estou agora...

Henrik disse...

Minha querida, sabes bem o quanto gosto de ti, mas atenta bem no que vou dizer: tudo isto que criamos dia-a-dia, isto é as formas como nos mantemos vivos quando mais precisamos são muito úteis. mas, em rigor dizer que sabemos mais do que sabíamos é uma audácia: os velhos não se tornam mais sábios. Tornam-se mais prudentes.

Persephone disse...

e o que te diz que a tua teoria está correcta...o saber não está nas coisas práticas, e a prudência é uma consequência do saber...