"...tinha absorvido todas as palavras que ele proferira, com uma passividade incrível e incompreensível.
Ela amava-o doentiamente, como o amor deve ser, e toda a existência era testemunha disso. Descodificou o fim daquele amor com normalidade, e no íntimo dela, nada a convencia de que era o ínicio de uma dor, pois a solução há muito que estava decidida.
Aquela noite de amor em que pela primeira vez seus corpos tinham sido um do outro, tinha um cheiro de obsessao e infantilidade...Há muito que ambos a esperavam, mas ambos sabiam que depois daquelas horas,que mais pareciam segundos, os seus olhos não mais se encontrariam.
E ele continuava...
- Inês... Há algo que preciso dizer-te: Nós já não...Eu e tu já não...
- Espera um pouco, vou buscar um cigarro.
Inês interrompera Henrique com a inocência de uma criança, e dando-lhe um beijo na testa disse-lhe carinhosamente:
- Não me demoro, amor.
Henrique recostou-se na cama e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto. Ele sabia que o mundo iria desabar dentro de minutos e não tinha outra solução. Na sua mente um jogo de palavras ia-se formando tão rapidamente como o seu desespero, frases soltas vinham-lhe à mente, mas nada que impedisse a fatalidade daquele fim acontecer. Esperava por Inês para lhe falar do fim.
No pesado silêncio da casa de Sofia que parecia condizer com a alma daqueles dois, ouviu-se uma estridente gargalhada tão familiar a Henrique. Por segundos teve paz no seu espírito inquieto, uma pequena felicidade ao ouvir aquele som e recordar todos os momentos e sentimentos que esse lhe trazia. Era bela a sua gargalhada, tão inocente e feliz...
- Inês? - Gritou.
- Só mais um minuto.
Ela passeava descalça no corredor...Os seus pés quentes ficavam marcados no soalho, tal como na praia, naquele dia em que conhecera Henrique. Estava frio ali. No seu espírito levava paz... Ela adivinhava todas as palavras e gestos de Henrique...Ela sabia o que os esperava, mas isso não alterava a sua convicção e pequena alegria inocente da sua decisão.
Subiu as escadas lentamente com passos firmes, no corredor apanhou a fita de cetim preto que envolvia as já murchas e empoeiradas rosas vermelhas da tia de Sofia. Olhou a porta do quarto onde se entregara aquela noite e entrou na porta anterior, a da sala.
Acendeu a luz, olhou o tecto e para seu contentamento não havia candeeiro, apenas a típica cavilha de ferro para o segurar.
Arrastou, com calma, uma das 13 cadeiras que envolviam a mesa. Era uma cadeira diferente das outras, mais alta, tal como ela ambicionara. - começo a achar que esta casa está de acordo comigo - pensou.
Subiu a cadeira, atou a fita de cetim preto na cavilha, envolveu-a suavemente no seu pescoço e com entusiasmo tombou a cadeira com os pés.
O ar ainda passava, mas era uma questão de segundos, pensava.
- Inês, demoras?
Chovia lá fora, e ela já não respirava...ainda sorriu...Inês suicidara-se por não poder amar Henrique..."
Excerto do meu livro " A dor por trás do pano preto"
2004
4 comentários:
Este excerto....é-nos caro ainda que ficcionado...:)
Não fossemos nós os dois as personagens principais...
LOL. Elemento decisivo de facto....em todo o caso...adoro a escrita:)
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