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quinta-feira, 31 de julho de 2008

Carta de uma viuva

Há muito que partiste meu amor, mas sei que me ouves. O teu cheiro continua aqui, insiste em se demarcar de todos os cheiros que vivem neste sítio todos os dias...o cheiro da comida que não como, da chuva que não é maior que maior que as minhas lágrimas, do sol que não me aquece, da terra, das folhas secas de mais um Verão que não estás aqui. Há muito que partiste meu amor...mas ouço todos os dias a tua voz, sinto os teus braços, riu-me com as tuas gargalhadas que ecoam nestas paredes tão pequenas para a minha dor...Há muito que partiste meu amor, mas ainda te vejo dormir nos meus lençóis, ainda toco na tua pele macia e te sussurro o quanto és belo. Protejo-te, sufoco-te, desejo-te. Os dias vão passando aqui, e tento refazer tudo, reconstruir tudo sem as tuas mãos, sem a tua força, sem a tua energia. Há muito que partiste meu amor, mas os teus olhos ainda os vejo, castanhos, escuros como uma noite feliz em que nos beijamos pela primeira vez...lembras-te amor? tanta gente e nós sós, naquele momento. Tudo era nosso, o mundo, a liberdade, a paz, o amor. Ainda te lembras de mim? Poder ter a certeza que estás bem, lá no teu longe tão perto, poder saber que não perdeste esse jeito tímido de criança curiosa de tudo o que a rodeia. Hoje choro amor, como no dia em que partiste e eu não me pude despedir...mas todos os dias me embalo nas nossas memórias, nas nossas promessas, de quando a velocidade nos levava longe e o vento nos fazia ter a sensação que podíamos voar, de quando o mar nos acolhia e se mostrava só para nós...aquela noite amor, o mar e eu mostramos-te quem eu era, o que queria...eras só tu, eu e o mar que levou os nossos segredos e não os mostrou a mais ninguém...
Há muito que partiste, meu amor, e eu sobrevivo à tua ausência, como uma metade de mim que não volta mais...
Há muito que partiste, meu amor...contigo fui eu...e as saudades serão eternas.
Há muito que partiste...contigo levaste o meu amor. Para sempre.

Amo-te


Carta de uma viuva.


Persephone

terça-feira, 29 de julho de 2008

Estações são teus sorrisos,
Demoras ideias nas arcadas
Somas às palavras mil juízos
De ferozes e assombradas
Vis, senis e abandonadas,
Teu rosto marcado, Teu rosto dourado
De nenhum feliz sol...
Estações, efémeras estações
Mas tu não, tu não mentes no olhar,
Baço e solto olhar
Transparente em não ser
E dizes, cantas sem querer
Lúcida e atroz
A primazia do som da tua voz.
Estações, são quatro, como os teus sorrisos
Túmulos nunca serão,
De quem nunca os pilhou em desamor
E aclamado,
Teu corpo repousa
Na superfície do seu criador.


Persephone

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Estão cruzadas as palavras no teu livro de marchas falantes.
Vives nessa ânsia de vértices simples,
Ampliados por emoções desse cigarro que fumas
E desse riso que encerra em ti toda a humanidade de um alguém.
Bates a cinza devagar e olhas-me.
Meus olhos, sob a ilusão de gozo que os teus me dão,
Fervilham um número atroante de emoções
E suplicam-te vaga mas poderosamente
Que me cures de mim.
Embalo-me quieta em movimentos que não consigo parar,
Resmungo e canso-me.
Acendes outro cigarro e levantas o rosto,
Num movimento tão em ti comum e estupidamente belo.
És tu assim...
O requinte do silêncio por nós disperso é quase transcendente,
Como sem querer, dentro de mim,
Vedado em pedaços mágicos,
É o desejo de beber esse teu riso.



Para alguém que sem querer me leva o pensamento a toda a hora...


Persephone

terça-feira, 22 de julho de 2008

No estreito claustro que rodeia a tua adversa penitência,
Teu vulto, que nunca aviltante foi,
Surge na luz da madrugada, despertando a ébria paixão
Que guardo em baús forrados de nefastos amores descontrolados,
Sob meus olhos adormecidos
Em noites de fria decepção.

Olha-me, dança com esse olhar que me desarma
E me despe da ecunémica vergonha que é já não saber amar
E, de mãos quentes imersas na minha pele
E histórias de reinados
Conquistas de além-mar,
Grita fogo, pede mais
Que só de amor te hei-de matar.


Persephone

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Os ponteiros do relógio são mudos, mas ressoam na minha cabeça
Como firmes tambores que marcam os passos de um soldado.
Marcha! - penso - sem rumo nem sorte.
Uso máscara, as lágrimas são de quem espera e observa o teu corpo
Sombrio na luz de papel da noite mal escolhida.
Canto-te no silêncio verdades que não ouves,
E a chuva insiste em bater no vidro tão transparente como as tuas mãos,
Que o meu corpo abandonam.
Não grito porque dormes. Não durmo porque grito.
É subtil o teu respirar, reconheço o teu cansaço sem olhar.
Vivo de cheiro, sobrevivo de lugares
E acordo quente de ti num lugar jamais de minha posse...
Sussurra-me o amanhã que nunca vai chegar,
Eu sou donzela de nobres ruínas,
Espaços sem nomes,
Onde insisto em não permitir o tempo passar...

Persephone

To Rui
Abril 2007

sábado, 12 de julho de 2008

Às vezes pergunto-me como seria se o ser humano não sentisse. Seria tão livre, tão solto. Olhar-te-ia nos olhos e não teria medo. Não te desejava. Podias ser indiferente, o teu cheiro não me provocaria desejo, o teu nome não ecoava no meu coração, nem a tua ausência me faria saudade, a tua condição não me provocaria ansiedade e o teu beijo...o teu beijo não me faria amar-te...
Não quero ser humana, não hoje, não agora. Somos tão fracos, tão pobres, mas sentimos.
Quem autorizou esta forma de ser, este remar contra a maré que me cansa o corpo? E tudo seria tão simples. Bastava não sentir. Não quero, mas sinto...
E arranco-te de mim e cada segundo que te sinto. Sinto. Sinto. Sinto. Sinto. Podia deixar de fazer sentido. Podia ser conjugado sem o estado de presença.
Mas somos humanos. Fugimos de tudo. Mas nunca de sentir.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Abanas-me, ofegante de gritar por guerra.
Estou cansada… deixa que se note a demência da minha alma…
É uma tarefa ingrata e feliz num contraste certeiro,
Ris traído pela tua inocência,
Choras contemplado pela tua decadência…
E assim te vou amando.
Presa ao chão imundo das tuas palavras,
E num instante desse tempo que não passa,
Vejo-te envenenar a luz, tão triunfante de tudo… tão triunfante de nada…
Sim... De nada…
O silêncio magoa-te, intensa dor que te provoca…
Eu calo-me e tu lentamente vais morrendo…
As trevas vão desaparecendo…
Estou quieta, gélida de visão…
E nestes saudosos passos falsos,
Surge a paz encantada,
Tão perfeita, tão esperada
Daquela velha e doce solidão…

Persephone

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Sento-me. Doi-me o corpo. O dia está abafado e não consigo respirar. Não te consigo perdoar. Não me sei perdoar. Rio-me. Sei que não doi. Sei-te demais. E estranho não te pensar, não te querer, não te deixar ficar. Agora deito-me. Nua. Desejo-me. Penso, recordo, aflijo, choro, grito, revolto-me. Mas continuo sem te pensar. Olho para o pouco que vivi. Olho para o pouco que tenho para viver. É fácil querer, é difícil morrer. Olho-me de fora como se soubesse levitar. Experimento voar. Encontro-te fora de mim. Quem és? Quem fomos? Já não sou. Sinto o sangue a palpitar nas veias porque me lembro. Já não sei chorar porque recordo. Não sei quem és. Estás longe. Estás perto. Páro. Agora levanto-me. Danço. Toco-me. Passo a mão no pó da mesa. Encontro a tua foto. Deixo-a estar porque não te quero recordar. Tanto me faz. Não sei se existes. Adormeço. Não quero saber. Não quero morrer...por ti outra vez.

Persephone
Agosto 2007

terça-feira, 8 de julho de 2008


"...tinha absorvido todas as palavras que ele proferira, com uma passividade incrível e incompreensível.
Ela amava-o doentiamente, como o amor deve ser, e toda a existência era testemunha disso. Descodificou o fim daquele amor com normalidade, e no íntimo dela, nada a convencia de que era o ínicio de uma dor, pois a solução há muito que estava decidida.
Aquela noite de amor em que pela primeira vez seus corpos tinham sido um do outro, tinha um cheiro de obsessao e infantilidade...Há muito que ambos a esperavam, mas ambos sabiam que depois daquelas horas,que mais pareciam segundos, os seus olhos não mais se encontrariam.
E ele continuava...
- Inês... Há algo que preciso dizer-te: Nós já não...Eu e tu já não...
- Espera um pouco, vou buscar um cigarro.
Inês interrompera Henrique com a inocência de uma criança, e dando-lhe um beijo na testa disse-lhe carinhosamente:
- Não me demoro, amor.
Henrique recostou-se na cama e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto. Ele sabia que o mundo iria desabar dentro de minutos e não tinha outra solução. Na sua mente um jogo de palavras ia-se formando tão rapidamente como o seu desespero, frases soltas vinham-lhe à mente, mas nada que impedisse a fatalidade daquele fim acontecer. Esperava por Inês para lhe falar do fim.

No pesado silêncio da casa de Sofia que parecia condizer com a alma daqueles dois, ouviu-se uma estridente gargalhada tão familiar a Henrique. Por segundos teve paz no seu espírito inquieto, uma pequena felicidade ao ouvir aquele som e recordar todos os momentos e sentimentos que esse lhe trazia. Era bela a sua gargalhada, tão inocente e feliz...
- Inês? - Gritou.
- Só mais um minuto.
Ela passeava descalça no corredor...Os seus pés quentes ficavam marcados no soalho, tal como na praia, naquele dia em que conhecera Henrique. Estava frio ali. No seu espírito levava paz... Ela adivinhava todas as palavras e gestos de Henrique...Ela sabia o que os esperava, mas isso não alterava a sua convicção e pequena alegria inocente da sua decisão.
Subiu as escadas lentamente com passos firmes, no corredor apanhou a fita de cetim preto que envolvia as já murchas e empoeiradas rosas vermelhas da tia de Sofia. Olhou a porta do quarto onde se entregara aquela noite e entrou na porta anterior, a da sala.
Acendeu a luz, olhou o tecto e para seu contentamento não havia candeeiro, apenas a típica cavilha de ferro para o segurar.
Arrastou, com calma, uma das 13 cadeiras que envolviam a mesa. Era uma cadeira diferente das outras, mais alta, tal como ela ambicionara. - começo a achar que esta casa está de acordo comigo - pensou.
Subiu a cadeira, atou a fita de cetim preto na cavilha, envolveu-a suavemente no seu pescoço e com entusiasmo tombou a cadeira com os pés.
O ar ainda passava, mas era uma questão de segundos, pensava.
- Inês, demoras?

Chovia lá fora, e ela já não respirava...ainda sorriu...Inês suicidara-se por não poder amar Henrique..."

Excerto do meu livro " A dor por trás do pano preto"
2004

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