"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente por serem impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo... O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas..."
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terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Discurso de Persephone
Todo o corpo é edível porque é da podridão que vós sobreviveis,
Mas nada, nada do que podereis fazer será distinto na glória porque vossos olhos estão cobertos de sangue que vos impede de caminhar de pé.
Rastejai, rastejai até ao Hades, morada eterna de discórdia e da paixão,
E nunca, nunca devereis temer o julgamento da vossa conduta perante a vida, pois o desprezo a vós diz respeito, e o nojo que tendes do mal é espelho de vossas mãos...
Senhores, ardei no Hades com a imagem daquilo que só a vós pertence, morrei sucumbindo e sendo ninguém...
Persephone
Persephone - Deusa Grega que, por casamento com Hádes, Deus do inferno, se torna a deusa do mesmo.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Da longa viagem que faço sem partir.
E, absorta em todos os pensamentos
Que me fazem desistir,
Fico inerte em abraços intermináveis
E lamento o tempo que passa longe da minha estrada.
Paredes meias, de costas voltadas,
Insiro Nela todas as formas seculares e involuntárias
De sorrisos e entraves
À lúgrebe forma de viver.
Despeço-me de veludos dourados,
Das palavras dissonantes; do corpo embotado,
E chamo-me a mim.
Talvez.
Embono o meu navio de guerra funesto e traço novas rotas
Meu porto me espera, algures entre a vitória e a derrota.
Persephone
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Paralyzed
This is where your sanity gives in
and love begins
Never lose your grip
don't trip
don't fall
you'll lose it all
The sweetest way to die
It lies deep inside
you can not hide
it's the meanest fire
Oh, it's a strange desire
you can not lie
that's a needless fight
This is where your sanity gives in
and love begins
Never lose your grip
don't trip
don't fall
you'll lose it all
The sweetest way to die
When your blood runs dry
you're paralyzed
it will eat your mind
Did you hold it back
It comes to you in slow attacks
It's the meanest fire
Paralyzed
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Vazia e amarga,
Sem ti, molhada de mel
Relembro todas as histórias
Em que fui rainha do teu viver,
Do teu mal amado e consumado morrer.
Senti, sentia-te em mim
Durante a unificação de nós
Morri, morria-te assim
E sei a mágoa de cor...
Volta meu amor,
Deixa-me sorrir-te e não dar,
Deixa-me partir e chegar
Tantas vezes ao nosso leito
Ao nosso amor, ao nosso amar...
Foste-te. Oh, como dói,
Faz-te em mim lembrança
Esquece-te.
E ao meu amor senil
Canta-o e destroí.
Persephone
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
A ti, Joana
podia ter tido alguém que vivesse comigo a minha pré-adolescência, que me visse maquilhar a primeira vez, que começasse a viver esse amor pela dança tão intensamente como eu, que me ouvisse cantar, que soubesse do meu primeiro beijo, que não se quisesse separar de mim e eu dela...e tive...a vida separou-nos...podia ter tido alguém que vivesse comigo a minha adolescência...que estivesse lá nas minhas primeiras grandes quedas, no primeiro impacto da responsabilidade, do sentido da existência, das lágrimas, da primeira depressão, do primeiro amor, da primeira vez...e tive, mas a vida separou-nos mais uma vez...
Depois apareceste tu, Joana. Apareceste tu. Ninguém sabe da tua existência na minha vida, porque eu quis esquecer-te. Eu sei que me conheces bem, por isso também sei que tu sabes o quanto vivo cada momento intensamente e o quanto reflicto sobre as mais pequenas coisas. Consequentemente, sabes que só te podia tentar esquecer, apagar, por puro egoísmo, por não querer mais uma página ausente de um ser. Erámos tão inseguras, tão inocentes. Lembras-te? Eu podia perdoar-te. Eu podia perdoar-me.
Hoje, neste preciso momento precisava que me dissesses que eu nunca cresci, que eu não sou mulher, precisava que me dissesses que eu não tenho consciência do mundo e que estes anos não passaram na minha vida...Seria mesmo feliz quando arrastava as caudas dos meus vestidos pretos pelas escadas daquela parada? Eu costumava achar que toda aquela pedra fria daquele velho quartel condizia comigo...Eu era só a miúda de negro que ouvia metal e estudava literatura. Gostava do estatuto, ninguém se preocupava em saber mais...eu sim, tinha paz. Uma paz tão aparente que quando tirou a máscara levou-me para longe. Demasiado longe de mim. Achas que eu sempre soube o que sou? Diz-me tu se eu já fui feliz, diz-me que tudo o que vi fez de mim alguém melhor. Já não és. Já não somos. Isso assusta-me. Assusta-me a partilha tornar-se vazio e com o tempo ausência e indiferença. Será por isso que sou emotiva? Será por isso que sou impulsiva? Inocente? Infantil? Incoerente? Eu sei que tu sabes, diz-me se dou demasiada importância aos valores? Devia dar mais? Diz-me se é um erro. Como das vezes que me encostava a ti e tu cantavas comigo a música das galinhas e logo a seguir me chamavas criança. Será por isso? Será que os meus valores estão errados? Às vezes odeio-te. Só porque me lembro de ti e porque os anos passaram e eu posso agora dizer "podia ter tido alguém que me acompanhasse na minha juventude, que me visse realizar os meus primeiros sonhos como mulher, que me visse afirmar-me, a ter responsabilidades, a formar-me como pessoa, que fosse minha cúmplice a toda a hora e gostasse de todos os meus defeitos incondicionalmente...e tive...mas a vida separou-nos, Joana"... e eu não posso fazer nada...
Não sabes como doí, como lamento. És um segredo só meu. Esqueci-te.
Acredita que gosto muito de ti.
Um beijo
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Essa tua voz manchada de ordem e força
Que roça em mim embalando-me,
Tal como esse movimento viciante
Que transforma os traços da tua pele
Em sorrisos vagos, deliciosamente delicados
Como ouro no céu.
E eu descanso no erro, turvo erro de estado contra-amor;
Devia ter-me sido permitido amar-te desde o dia em que nasci,
Mas se algum dia morri, tudo é teu,
Despida de medos, sem fraquezas.
Grito o fogo árduo que queima bem lento
Sempre que o teu cheiro me alucina e o corpo fraqueja ao desejo das tuas mãos.
Rio-me, rio-me nos meus segredos que tu nunca vais descobrir
Sim, aqueles que tu conheceste no meu olhar
Que permanecem na ilusão de meus serem...
TENS-ME!
Meritório na tua altivez, rendo-me à tua presença
Não sou minha de encontros em existência
Mas desarma-me que o sempre será a nossa sentença.
Persephone
Não sofre,
Guia-se pelas reticências intermitentes que a luz ao caminho abandona.
São mais mágoas que sonhos esbatidos de desespero quando o sono o corpo derrota.
Se a alma enfim se alimenta, rápido desfalece às constantes batalhas que trava com a sorte.
Doce missivo, tuas palavras encerram em mim a angústia de te ver partir,
E com meu doentio e perdido amor,
Acordo a noite com gritos de morte.
Oh saudade, não te sustentei em vão,
Mas em vão te deixei gozar no teu limbo, o triunfo da tua essência...
Mas tu...se te chamar ou agarrar a mão,
Dois corpos não chegam para rasgar as imundas palavras da boca dos rebeldes humanos
Que atingem a nossa perfeição.
Tão insignificante e tão doloroso, tão dócil e infiel,
Existimos num olhar,
Exaltamos o nosso poder com glória,
O amor em nós foi fatal...
Abra-se o chão, fomos derrotados.
Ajoelhai-vos Senhores,
Vosso destino foi traçado pela infelicidade imortal....
Persephone
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Discurso de Psyche

Senhores, Senhores, ajoelhai-vos, deixai passar sobre vossos corpos Eros, deus do amor.
Vossa sede nunca será saciada, nenhum de vós será digno do verdadeiro amor.
Como ousais achar-vos dignos de amar, se nem a vós mesmos entregais vossas vidas, tão imundas e cobertas de rancor?
De que vos interessais vós? Somente de dois corpos entregues a um futuro vazio, sem glória nem pudor...
Fugi, fugi de minha cólera, sou eu quem detem vossas almas em minha posse. Só sabereis o que é o amor, quando de vosso coração, que não vos pertence, jorrar o sangue que Zeus vos concedeu...negro da futilidade que vos move...
Se sofrerdes mais do que quando uma lança vos traça o peito, talvez, no alto dos céus, bem longe no Olimpo, Eros poderoso vos dote do tão simples amor...
Só sereis dignos de levantar a cabeça a Eros quando morreres em vós mesmos...pelas lágrimas de outrem.
(Discurso sobre Eros, deus do amor, e único amor de Psyche, deusa da alma)
Persephone
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Escondi-te de mim mas não sei por vagos lugares,
Se de ti nada de tudo se faz em nós.
Sentada inquieto-me só,
A tua presença traz saudade de mim para ti, sem retorno nas mágoas,
E enfim, aqui.
Oh, mostra-me de novo aquele teu jeito feliz de dizeres que nada se perde,
E que o sangue corre nas veias seduzindo a vida a parar sempre que te ris.
Não te perdeste no tempo,
Não te perdi no meu caminho,
E isso é mais forte que o fogo cruzado em olhares que evitamos.
Penso-te, devoro-te de memórias e dou-me,
Sem o beijo...
Porque mais do que ele,
São os segredos que te conto sempre que te entrego a minha alma.
Persephone
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Em cada olhar cego a tua presença permanece. Mesmo que corra sem direcção, em cada caminho cruzado tu estás à minha espera...
Porque me fazes rir...
Porque me ouves...
Porque me prendes...
Porque não posso fugir...não posso evitar...
Sempre tu, sem nunca deixar de fazer sentido.
Palavras não chegam, perdem-se. Faz de mim tua, sem nunca pedir.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Carta de uma viuva
Há muito que partiste meu amor, mas sei que me ouves. O teu cheiro continua aqui, insiste em se demarcar de todos os cheiros que vivem neste sítio todos os dias...o cheiro da comida que não como, da chuva que não é maior que maior que as minhas lágrimas, do sol que não me aquece, da terra, das folhas secas de mais um Verão que não estás aqui. Há muito que partiste meu amor...mas ouço todos os dias a tua voz, sinto os teus braços, riu-me com as tuas gargalhadas que ecoam nestas paredes tão pequenas para a minha dor...Há muito que partiste meu amor, mas ainda te vejo dormir nos meus lençóis, ainda toco na tua pele macia e te sussurro o quanto és belo. Protejo-te, sufoco-te, desejo-te. Os dias vão passando aqui, e tento refazer tudo, reconstruir tudo sem as tuas mãos, sem a tua força, sem a tua energia. Há muito que partiste meu amor, mas os teus olhos ainda os vejo, castanhos, escuros como uma noite feliz em que nos beijamos pela primeira vez...lembras-te amor? tanta gente e nós sós, naquele momento. Tudo era nosso, o mundo, a liberdade, a paz, o amor. Ainda te lembras de mim? Poder ter a certeza que estás bem, lá no teu longe tão perto, poder saber que não perdeste esse jeito tímido de criança curiosa de tudo o que a rodeia. Hoje choro amor, como no dia em que partiste e eu não me pude despedir...mas todos os dias me embalo nas nossas memórias, nas nossas promessas, de quando a velocidade nos levava longe e o vento nos fazia ter a sensação que podíamos voar, de quando o mar nos acolhia e se mostrava só para nós...aquela noite amor, o mar e eu mostramos-te quem eu era, o que queria...eras só tu, eu e o mar que levou os nossos segredos e não os mostrou a mais ninguém...
Há muito que partiste, meu amor, e eu sobrevivo à tua ausência, como uma metade de mim que não volta mais...
Há muito que partiste, meu amor...contigo fui eu...e as saudades serão eternas.
Há muito que partiste...contigo levaste o meu amor. Para sempre.
Amo-te
Carta de uma viuva.
Persephone
terça-feira, 29 de julho de 2008
Demoras ideias nas arcadas
Somas às palavras mil juízos
De ferozes e assombradas
Vis, senis e abandonadas,
Teu rosto marcado, Teu rosto dourado
De nenhum feliz sol...
Estações, efémeras estações
Mas tu não, tu não mentes no olhar,
Baço e solto olhar
Transparente em não ser
E dizes, cantas sem querer
Lúcida e atroz
A primazia do som da tua voz.
Estações, são quatro, como os teus sorrisos
Túmulos nunca serão,
De quem nunca os pilhou em desamor
E aclamado,
Teu corpo repousa
Na superfície do seu criador.
Persephone
sexta-feira, 25 de julho de 2008
Vives nessa ânsia de vértices simples,
Ampliados por emoções desse cigarro que fumas
E desse riso que encerra em ti toda a humanidade de um alguém.
Bates a cinza devagar e olhas-me.
Meus olhos, sob a ilusão de gozo que os teus me dão,
Fervilham um número atroante de emoções
E suplicam-te vaga mas poderosamente
Que me cures de mim.
Embalo-me quieta em movimentos que não consigo parar,
Resmungo e canso-me.
Acendes outro cigarro e levantas o rosto,
Num movimento tão em ti comum e estupidamente belo.
És tu assim...
O requinte do silêncio por nós disperso é quase transcendente,
Como sem querer, dentro de mim,
Vedado em pedaços mágicos,
É o desejo de beber esse teu riso.
Para alguém que sem querer me leva o pensamento a toda a hora...
Persephone
terça-feira, 22 de julho de 2008
No estreito claustro que rodeia a tua adversa penitência,
Teu vulto, que nunca aviltante foi,
Surge na luz da madrugada, despertando a ébria paixão
Que guardo em baús forrados de nefastos amores descontrolados,
Sob meus olhos adormecidos
Em noites de fria decepção.
Olha-me, dança com esse olhar que me desarma
E me despe da ecunémica vergonha que é já não saber amar
E, de mãos quentes imersas na minha pele
E histórias de reinados
Conquistas de além-mar,
Grita fogo, pede mais
Que só de amor te hei-de matar.
Persephone
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Os ponteiros do relógio são mudos, mas ressoam na minha cabeça
Como firmes tambores que marcam os passos de um soldado.
Marcha! - penso - sem rumo nem sorte.
Uso máscara, as lágrimas são de quem espera e observa o teu corpo
Sombrio na luz de papel da noite mal escolhida.
Canto-te no silêncio verdades que não ouves,
E a chuva insiste em bater no vidro tão transparente como as tuas mãos,
Que o meu corpo abandonam.
Não grito porque dormes. Não durmo porque grito.
É subtil o teu respirar, reconheço o teu cansaço sem olhar.
Vivo de cheiro, sobrevivo de lugares
E acordo quente de ti num lugar jamais de minha posse...
Sussurra-me o amanhã que nunca vai chegar,
Eu sou donzela de nobres ruínas,
Espaços sem nomes,
Onde insisto em não permitir o tempo passar...
To Rui
Abril 2007
sábado, 12 de julho de 2008
Não quero ser humana, não hoje, não agora. Somos tão fracos, tão pobres, mas sentimos.
Quem autorizou esta forma de ser, este remar contra a maré que me cansa o corpo? E tudo seria tão simples. Bastava não sentir. Não quero, mas sinto...
E arranco-te de mim e cada segundo que te sinto. Sinto. Sinto. Sinto. Sinto. Podia deixar de fazer sentido. Podia ser conjugado sem o estado de presença.
Mas somos humanos. Fugimos de tudo. Mas nunca de sentir.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Abanas-me, ofegante de gritar por guerra.
Estou cansada… deixa que se note a demência da minha alma…
É uma tarefa ingrata e feliz num contraste certeiro,
Ris traído pela tua inocência,
Choras contemplado pela tua decadência…
E assim te vou amando.
Presa ao chão imundo das tuas palavras,
E num instante desse tempo que não passa,
Vejo-te envenenar a luz, tão triunfante de tudo… tão triunfante de nada…
Sim... De nada…
O silêncio magoa-te, intensa dor que te provoca…
Eu calo-me e tu lentamente vais morrendo…
As trevas vão desaparecendo…
Estou quieta, gélida de visão…
E nestes saudosos passos falsos,
Surge a paz encantada,
Tão perfeita, tão esperada
Daquela velha e doce solidão…
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Sento-me. Doi-me o corpo. O dia está abafado e não consigo respirar. Não te consigo perdoar. Não me sei perdoar. Rio-me. Sei que não doi. Sei-te demais. E estranho não te pensar, não te querer, não te deixar ficar. Agora deito-me. Nua. Desejo-me. Penso, recordo, aflijo, choro, grito, revolto-me. Mas continuo sem te pensar. Olho para o pouco que vivi. Olho para o pouco que tenho para viver. É fácil querer, é difícil morrer. Olho-me de fora como se soubesse levitar. Experimento voar. Encontro-te fora de mim. Quem és? Quem fomos? Já não sou. Sinto o sangue a palpitar nas veias porque me lembro. Já não sei chorar porque recordo. Não sei quem és. Estás longe. Estás perto. Páro. Agora levanto-me. Danço. Toco-me. Passo a mão no pó da mesa. Encontro a tua foto. Deixo-a estar porque não te quero recordar. Tanto me faz. Não sei se existes. Adormeço. Não quero saber. Não quero morrer...por ti outra vez.
PersephoneAgosto 2007
terça-feira, 8 de julho de 2008
"...tinha absorvido todas as palavras que ele proferira, com uma passividade incrível e incompreensível.
Ela amava-o doentiamente, como o amor deve ser, e toda a existência era testemunha disso. Descodificou o fim daquele amor com normalidade, e no íntimo dela, nada a convencia de que era o ínicio de uma dor, pois a solução há muito que estava decidida.
Aquela noite de amor em que pela primeira vez seus corpos tinham sido um do outro, tinha um cheiro de obsessao e infantilidade...Há muito que ambos a esperavam, mas ambos sabiam que depois daquelas horas,que mais pareciam segundos, os seus olhos não mais se encontrariam.
E ele continuava...
- Inês... Há algo que preciso dizer-te: Nós já não...Eu e tu já não...
- Espera um pouco, vou buscar um cigarro.
Inês interrompera Henrique com a inocência de uma criança, e dando-lhe um beijo na testa disse-lhe carinhosamente:
- Não me demoro, amor.
Henrique recostou-se na cama e as lágrimas começaram a escorrer-lhe pelo rosto. Ele sabia que o mundo iria desabar dentro de minutos e não tinha outra solução. Na sua mente um jogo de palavras ia-se formando tão rapidamente como o seu desespero, frases soltas vinham-lhe à mente, mas nada que impedisse a fatalidade daquele fim acontecer. Esperava por Inês para lhe falar do fim.
No pesado silêncio da casa de Sofia que parecia condizer com a alma daqueles dois, ouviu-se uma estridente gargalhada tão familiar a Henrique. Por segundos teve paz no seu espírito inquieto, uma pequena felicidade ao ouvir aquele som e recordar todos os momentos e sentimentos que esse lhe trazia. Era bela a sua gargalhada, tão inocente e feliz...
- Inês? - Gritou.
- Só mais um minuto.
Ela passeava descalça no corredor...Os seus pés quentes ficavam marcados no soalho, tal como na praia, naquele dia em que conhecera Henrique. Estava frio ali. No seu espírito levava paz... Ela adivinhava todas as palavras e gestos de Henrique...Ela sabia o que os esperava, mas isso não alterava a sua convicção e pequena alegria inocente da sua decisão.
Subiu as escadas lentamente com passos firmes, no corredor apanhou a fita de cetim preto que envolvia as já murchas e empoeiradas rosas vermelhas da tia de Sofia. Olhou a porta do quarto onde se entregara aquela noite e entrou na porta anterior, a da sala.
Acendeu a luz, olhou o tecto e para seu contentamento não havia candeeiro, apenas a típica cavilha de ferro para o segurar.
Arrastou, com calma, uma das 13 cadeiras que envolviam a mesa. Era uma cadeira diferente das outras, mais alta, tal como ela ambicionara. - começo a achar que esta casa está de acordo comigo - pensou.
Subiu a cadeira, atou a fita de cetim preto na cavilha, envolveu-a suavemente no seu pescoço e com entusiasmo tombou a cadeira com os pés.
O ar ainda passava, mas era uma questão de segundos, pensava.
- Inês, demoras?
Chovia lá fora, e ela já não respirava...ainda sorriu...Inês suicidara-se por não poder amar Henrique..."
Excerto do meu livro " A dor por trás do pano preto"
2004