"Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente por serem impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo... O sentirmo-nos é então um campo deserto a escurecer, triste de juncos ao pé de um rio sem barcos, negrejando claramente entre margens afastadas..."
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segunda-feira, 27 de junho de 2011
Conversa com um Imperador Romano - IV
Filosofias fáceis descrevem a vida pela sua efemeridade. Outrora também eu julguei que tudo era efémero. Raios!, como me sinto enganada por ter crido e sucumbido em algum instante nessa/ a essa não-verdade. A memória eterniza momentos e sobretudo sentimentos, aqueles que nos coagem a fazer melhores escolhas, a corrigir erros, a reflectir. Em algum momento tudo é eterno, porque assim nos permite a memória, mas não por recordarmos o que passou, não, isso não. Só é eterno, aquilo que, de alguma forma, ainda nos provoca emoções, aquilo que, em algum minuto da nossa existência, nos faz questionar, nos rege as acções. Estas sim, são passageiras. As emoções nunca. Nada pode ser efémero porque a vida um ciclo.
Não questiono o meu dia de amanhã. A semana que vem. Os próximos 20anos. Tu assustas-me. Tu fascinas-me. Às vezes não quero saber de ti. Muitas vezes creio que és idiota, absurdo. Camus dizia que "o absurdo é a razão lúcida que constata os seus limites"; eu gosto do absurdo que te envolve, que tu envolves, mas gosto sobretudo da minha aversão, que culmina numa paixão, paradoxalmente, por limites ou falta deles. Passo por ti e preciso parar. É uma-qualquer-coisa que eu nunca soube bem explicar. Sempre existiram muitas realidades na minha vida que, de alguma forma, me assustaram. Um misto de apreensão, deslumbramento, duvida, medo e aquilo-que-alguém-chama-de-borboletas-na-barriga. E eu sempre tão tendenciosa (a ambiguidade da palavra sou eu que a faço) para correr atrás dessas “muitas realidades”, daquilo que sempre me foi desconhecido… TU nunca serás efémero. Para a natureza, talvez. Para mim, nunca. Tu és emoções. O plural da palavra deveria só por si explicar a tua complexidade. Há sempre certezas, meu bem. Foi com elas que apaguei o cigarro e segui viagem… com aquela paz de sempre. Persephone
terça-feira, 7 de junho de 2011
Psyche e Eros

"Psyche era a mais nova de três filhas de um rei de Mileto e era extremamente bela.
A sua beleza era tanta que pessoas de várias regiões iam admirá-la, assombradas, rendendo-lhe homenagens que só eram devidas à própria Afrodite.
Profundamente ofendida e enciumada, Afrodite enviou seu filho, Eros, para fazê-la apaixonar-se pelo homem mais feio e vil de toda a terra. Porém, ao ver sua beleza, Eros apaixonou-se perdidamente.
O pai de Psyche, suspeitando que havia ofendido os deuses, resolveu consultar o oráculo de Apolo, pois as suas outras filhas encontraram maridos e Psyche permanecia sozinha. Através desse oráculo, o próprio Eros ordenou ao rei que enviasse sua filha ao topo de uma solitária montanha, onde seria desposada por uma terrível serpente.
A jovem, aterrorizada, foi levada ao pé do monte e abandonada por seus pesarosos parentes e amigos.
Conformada com seu destino, Psyche foi tomada por um profundo sono, sendo, então, conduzida pela brisa gentil de Zéfiro a um lindo vale.Quando acordou caminhou por entre as flores até chegar a um castelo magnífico que só poderia ser a morada de um deus, tal a perfeição que podia ver em cada um dos seus detalhes.
Com coragem entrou no deslumbrante palácio, onde todos os seus desejos foram satisfeitos por ajudantes invisíveis, dos quais só podia ouvir a voz.
Chegando a escuridão, foi conduzida pelos criados a um quarto de dormir e, certa que ali encontraria finalmente o seu terrível esposo, começou a tremer quando sentiu que alguém entrara no quarto.No entanto, uma voz maravilhosa a acalmou e sentiu mãos humanas acariciarem seu corpo.
A esse amante misterioso, ela entregou-se.
Quando acordou, já havia chegado o dia e seu amante havia desaparecido, porém essa mesma cena foi repetida por diversas noites.
Enquanto isso, suas irmãs continuavam à sua procura, mas seu esposo misterioso a alertou para não responder aos seus chamados, mas sentindo-se solitária em seu castelo-prisão, implorou ao seu amante para deixa-la ver as suas irmãs ao que cedeu impondo a condição de que, não importando o que suas irmãs dissessem, ela nunca tentaria conhecer sua verdadeira identidade. Quando as irmãs entraram no castelo e viram aquela abundância de beleza e maravilhas, foram tomadas de inveja e notando que o esposo de Psyche nunca aparecia, perguntaram maliciosamente sobre sua identidade, o que aumentou a curiosidade dela. Eros alertou-a que suas irmãs estavam tentando fazer com que ela olhasse seu rosto, mas se assim fizesse, ela nunca mais o veria, além disso, ele contou-lhe que ela estava grávida e se ela conseguisse manter o segredo a criança seria divina, porém se ela falhasse, seria mortal.
Ao receber novamente suas irmãs, Psyche contou-lhes que estava grávida, e que sua criança seria de origem divina deixando-as ainda mais enciumadas com sua situação, pois além de todas aquelas riquezas, ela era a esposa de um lindo deus.
Assim, trataram de convencer a jovem a olhar a identidade do esposo pois, se ele estava a esconder o rosto, era porque havia algo de errado com ele. Assustada com o que suas irmãs disseram, escondeu uma faca e uma lâmpada próximo a sua cama, decidida a conhecer a identidade de seu marido, e se ele fosse realmente um monstro terrível, matá-lo, esquecendo os avisos de seu amante.
À noite, quando Eros descansava ao seu lado, Psyche tomou coragem e aproximou a lâmpada do rosto de seu marido, esperando ver uma horrenda criatura. Para sua surpresa, o que viu deixou-a maravilhada. Um jovem de extrema beleza estava repousando com tamanha quietude e doçura, que ela pensou em acabar com a própria vida por haver dele duvidado.
Enfeitiçada por sua beleza, demorou-se admirando o deus alado. Não percebeu que havia inclinado de tal maneira a lâmpada que uma gota de óleo quente caiu sobre o ombro direito de Eros, acordando-o. Eros olhou-a assustado, e voou pela janela do quarto, dizendo:
- “Tola Psyche! É assim que retribuis o meu amor? Depois de haver desobedecido as ordens de minha mãe e te tornado minha esposa, tu julgavas-me um monstro e estavas disposta a cortar a minha cabeça? Vai. Volta para junto de tuas irmãs, cujos conselhos pareces preferir. Não te imponho outro castigo, além de deixar-te para sempre. O amor não pode conviver com a suspeita.”
Quando se recompôs, notou que o lindo castelo à sua volta desaparecera, e que se encontrava bem próxima da casa de seus pais. Psyche ficou inconsolável. Tentou suicidar-se atirando-se em um rio próximo, mas suas águas a trouxeram gentilmente para sua margem. Foi então alertada por Pan, que lhe disse para esquecer o que se passou e procurar novamente ganhar o amor de Eros.
Por sua vez, quando suas irmãs souberam do sucedido, fingiram pesar, mas vão com Psyche para o topo da montanha, pensando em conquistar o amor de Eros. Lá chegando, chamaram o vento Zéfiro, para que as sustentasse no ar e as levasse até Eros. Zéfiro desta vez não as ergueram no céu, e elas caíram no despenhadeiro, morrendo.
Psyche, resolvida a reconquistar a confiança do marido, saiu à sua procura por todos os lugares da terra, dia e noite, até que chegou a um templo no alto de uma montanha.
Com esperança de lá encontrar o amado, entrou no templo e viu uma grande confusão de grãos de trigo e cevada, ancinhos e foices espalhados por todo o recinto. Convencida que não devia negligenciar o culto a nenhuma divindade, pôs-se a arrumar aquela desordem, colocando cada coisa em seu lugar.
Deméter, para quem aquele templo era destinado, ficou profundamente grata e disse-lhe:
- “Psyche, embora não possa livrar-vos da ira de Afrodite, posso ensinar-vos a fazê-lo com suas próprias forças: ide ao seu templo e fazei a ela as homenagens que ela, como deusa, merece.”
Afrodite, ao recebê-la em seu templo, não esconde sua raiva. Afinal, por aquela reles mortal seu filho havia desobedecido suas ordens e agora ele encontrava-se no leito, recuperando-se da ferida por ela causada.
Como condição para o seu perdão, a deusa impôs uma série de tarefas que deveria realizar, tarefas tão difíceis que poderiam causar sua morte.
Primeiramente, deveria, antes do anoitecer, separar uma grande quantidade de grãos misturados de trigo, aveia, cevada, feijões e lentilhas. Psyche ficou assustada diante de tanto trabalho, porém uma formiga que estava próxima, ficou comovida com a tristeza da jovem e convocou seu exército a isolar cada uma das qualidades de grão.
Como Segunda tarefa, Afrodite ordenou que fosse até as margens de um rio onde ovelhas de lã dourada pastavam e trouxesse um pouco da lã de cada carneiro. Psyche estava disposta a cruzar o rio quando ouviu um junco dizer que não atravessasse as águas do rio até que os carneiros se pusessem a descansar sob o sol quente, quando ela poderia aproveitar e cortar sua lã. De outro modo, seria atacada e morta pelos carneiros. Dito isto, ela esperou até o sol ficar bem alto no horizonte, atravessou o rio e levou a Afrodite uma grande quantidade de lã dourada.
Sua terceira tarefa seria subir ao topo de uma alta montanha e trazer para Afrodite uma jarra cheia com a água escura que jorrava de seu cume. Mas no meio dos perigos que Psyche enfrentou, estava um dragão que guardava a fonte, que foi rapidamente ultrapassado com a ajuda de uma grande águia, que voou baixo próximo a fonte e encheu a jarra com a negra água.
Irada com o sucesso da jovem, Afrodite planeou uma última, porém fatal, tarefa. Psyche deveria descer ao mundo inferior e pedir a Persephone que lhe desse um pouco de sua própria beleza, que deveria guardar numa caixa. Desesperada, subiu ao topo de uma elevada torre e quis atirar-se, para assim poder alcançar o mundo subterrâneo. A torre, porém, murmurou instruções de como entrar em uma particular caverna para alcançar o reino de Hades. Ensinou-lhe ainda como ultrapassar os diversos perigos da jornada, como o cão Cérbero, e deu-lhe uma moeda para pagar a Caronte pela travessia do rio Estige, advertindo-a:
- “Quando Persephone vos der a caixa com sua beleza, tomai o cuidado, maior que todas as outras coisas, de não olhar dentro da caixa, pois a beleza dos deuses não cabe a olhos mortais.”
Seguindo essas palavras, conseguiu chegar até Persephone, que estava sentada imponente em seu trono e recebeu dela a caixa com o precioso tesouro. Tomada, porém, pela curiosidade no seu retorno, abriu a caixa para ver. Ao invés de beleza havia apenas um sono terrível que dela se apoderou.
Eros, curado de sua ferida, voou ao socorro de Psyche e conseguiu colocar o sono novamente na caixa, salvando-a.
Lembrou-lhe novamente que a sua curiosidade havia novamente sido sua grande fraqueza, mas que agora podia apresentar-se à Afrodite e cumprir a tarefa.
Enquanto isso, Eros foi ao encontro de Zeus e implorou a ele que apaziguasse a ira de Afrodite e repensasse o seu casamento com Psyche.
Atendendo seu pedido, o grande deus do Olimpo ordenou que Hermes conduzisse a jovem à assembleia dos deuses e a ela foi oferecida uma taça de ambrósias.
Então com toda a cerimónia, Eros casou-se com Psyche, e no devido tempo nasceu seu filho, chamado Voluptas (Prazer)."
Psyche tornou-se imortal, deusa da alma.
Psyche - Alma; Logos - Estudo. Psicologia- Estudo da "alma"
:)
sexta-feira, 20 de maio de 2011
(...) da porta Inês via Henrique no telhado. Aquele sítio mágico, com uma entrada privilegiada para o sótão onde ela se perdera tantas horas contemplando relíquias de outrora, aquele sítio onde tantas vezes se escondera para atingir Tiago "mortiferamente" com uma flecha nas suas brincadeiras de criança. O telhado era plano, como uma varanda. Era amplo e virado para o sol, virado para todos os lados da casa. De cima via-se o pátio, todas as janelas e um longo campo verde. O Inverno já havia começado, e estava muito escuro. Subiu as escadas - lembrou-se de Ana ali sentada, a desenhar; sempre soube que seria uma grande artista - em cada degrau uma memória, memória que só ela tinha e que queria desesperadamente partilhar com aquele estranho.
- O céu está lindo! - disse.
Henrique voltou-se e sorriu. - é verdade... - respondeu. Inês continuou:
- Quando era mais nova queria muito ser astrónoma, mas nunca me dei muito bem com a matemática e com a física. Penso não, decididamente a minha área são as letras.
As palavras enrolavam-se nos lábios, eram tão inúteis como a sua pressa. Havia algo nele que não a deixava pensar, havia algo que a fazia quase perder os sentidos. As pernas tremiam e ela não o conseguia olhar. Inês tinha a força de um exército mas era frágil como cristal. A sua ambição era poderosa mas a sua sensibilidade cruzava-lhe os caminhos. Henrique, lentamente, encostou o seu peito às costas dela e abraçou-a. Fez-se silêncio e ambos os rostos olharam o céu. A sensação era indescritível, sentiu-se fraca, pequena, loucamente apaixonada e de novo amaldiçoou o tempo por não parar, por não a fazer morrer naqueles braços (...)
- Obrigada por estares aqui... - disse-lhe.
- Se não tivesse vindo não aguentaria. É muito difícil lutar contra a saudade. Penso em ti dia e noite e escrevo. Sinto tanto a falta do teu sorriso...
Inês interrompeu-o de fúria e êxtase virando-se, frente a frente. Segurou-lhe o rosto com firmeza, como se entre as suas mãos estivesse o seu próprio coração: - E eu do teu, meu amor. De te abraçar, de te olhar, só de te olhar... - cravou os olhos nos dele - Amo-te tanto que corro o risco de enlouquecer. Estás no meu pensamento a todo o instante, sufoco quando anseio beijar-te e não posso, quando quero chamar por ti e estás tão longe...quero-te tanto...
Todo o corpo tremia agora...a alma também. Prosseguiu num pedido em desespero:
- Quero morrer primeiro que tu. Não aguentaria sofrer a tua ausência. - aquela ruga que Henrique tinha na testa, entre os olhos, de quem perdeu noites questionando-se, de quem observou doentiamente cada passo em seu redor, de quem tentou responder às angústias da juventude, desfez-se. Inês sentiu a sua mão quente arrumar, suavemente, uma madeixa de cabelo e a regressar, pelo mesmo caminho, ao seu rosto aflito. Henrique abraçou-a e ao ouvido desarmou-a subtilmente:
- Eu, se pudesse escolher, também preferia que partisses primeiro. O meu sofrimento eu aguentava, mas nunca aguentaria ver-te sofrer quando eu tivesse que me separar de ti...
Inês gelou e, enraivecida, empurrou Henrique. Apertou a cabeça num gesto de negação, e um turbilhão de emoções saltaram-lhe à boca. Rapidamente se misturaram a admiração e o espanto com a revolta e a sensação de egoísmo. Como podia ele conhece-la tão bem? Como sabia ele o quanto o amor lhe significava? Como poderia alguém tão altruísta amar uma mulher assim? Pior, como ousara ela ser tão egoísta? Ela, logo ela que punha tanta intensidade nas mãos sempre que se entregava? Não, não podia aceitar tamanho acto de desamor vindo de si mesma. Olhou Henrique cheia de lágrimas, lágrimas de arrependimento. Tinha os olhos grandes e castanhos que buscavam os dele numa procura de perdão desesperado. As pernas já não tremiam, deixaram apenas de lhe obedecer. Inês deambulava naquele telhado, sem norte, apertando a cabeça e pedindo perdão.
Estava frio, tanto frio ali e ambos ardiam numa paixão insana que nem as palavras destronavam - era urgente agir.
Henrique agarrou o braço de Inês e firmemente puxou-a para si gritando-lhe: - Olha para mim, amor! A respiração ofegante foi cedendo e ele sussurrou-lhe:
- Eu amo-te. E é assim que te quero. O que tens dentro de ti é lindo e é isso que me faz feliz. Tu fazes-me feliz.
- Afinal não sei amar. - respondeu derrotada.
- A tua inocência é pura e enternece-me. Tu vais crescer, e vais crescer comigo. Juntos.
Henrique apertou-a num beijo. Um beijo que, a ambos, soube a paz, a uma eterna confiança, a uma feliz esperança e a fogo, como todos os outros, como se fosse sempre o primeiro.
- Meninos, venham jantar!
Era a mesma voz, a mesma voz que odiou em criança sempre que interrompia as brincadeiras, e que agora odiava de novo.
Deram-se as mãos. Nascia a certeza da eternidade. (...)
Excerto do meu livro "A dor por trás do pano preto"
2004
A maior lição que levo para a vida.
Nem este excerto, nem a ligação com esta foto estão aqui por acaso, meu querido. No fundo, quis apenas dizer-te que és, mais do que tudo, meu. Meu na memória, meu em algum momento da vida, meu no passado, no presente e futuro, meu porque fizeste e continuas a fazer (mesmo: error hesternus sit tibi doctor hodiernus) de mim alguém sempre melhor. Este excerto é-nos caro, mais do que qualquer um. Eu não sei se te recordas desta noite. Mas sim, é verdade que no limite do medo, do consciente, o pensamento faz com que a memória nos corra em milésimos de segundos. E neste dia, neste ano, 2007, esta noite de 2002 veio-me à memória. As tuas palavras vieram-me à memória e, finalmente, aos 20 anos, percebi o que não tinha entendido aos 15, o que me quiseste mostrar: A verdadeira essência do AMOR. E aos 20anos consegui ver o amor incondicional que havia nos olhos e na alma desta Eva. É por isso, Sérgio, que nunca descarto nem deixo o tempo levar aqueles que são os pilares da minha vida e tu és, seguramente, um deles. Mesmo não te vendo há 9anos, vives diariamente comigo. Assim é a amizade...sem remorsos, sem questões. Simples e pura. E assim te revelo o segredo do dia 28 de Março... :)
Gosto de ti. Mais do que te poder dizer tudo isto é saber que te tenho sempre por perto. Obrigada.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Conversa com um Imperador Romano - III
Hoje vim em busca de alguma paz. É difícil ser-se ponderado quando não se tem paz no espírito. Não sou hipócrita. A minha paz passa sempre por ambições bélicas, por desordenar a minha ordem. Mas sabes, não é necessariamente mau, sempre tive aversão a tudo o que é convencional. Na verdade sou anti-convenção e não sofro por isso, não quando sei que a minha paz e a minha felicidade são consequência de tudo aquilo que defendo com a verdade.
Agora, estranhamente, nesta procura, tive a ousadia de me convencer que, mais do que ter a sorte de viver, seria ter a sorte de morrer, de me metamorfosear naquilo que acho ser a realidade mais metafísica que alguma vez questionei: A NATUREZA. Já pensaste como tudo seria fantástico se pudessemos reduzir a memória a cheiros, a sentidos? Imagina-te a regeres-te pelo cheiro da terra molhada, pelo sabor do mar, pelo suor de pela imergida em desejo, pelo som das tuas próprias gargalhadas? Como é genial a natureza...
Não acredito na morte, como não acredito na vida como sua opositora. Não sei se acredito na reencarnação, não se, no meu intelecto, o primeiro acto racional for decompor a palavra, for reflectir sobre o étimo. Não, Deus! A gramática refuta sempre as minhas crenças! Mas sim, acredito numa "reen-qualquer-coisa". Acredito que a Terra é um habitat de energia que se dispõe em várias realidades, que essa mesma energia é eterna e que circula desde o início do mundo. SOMOS TODOS ENERGIA. Não temos alma, PSYCHE, temos ENERGIA. Acredito sobretudo que toda a energia é consciente, apenas não pudemos experienciar, ou não nos lembramos, e consequentemente deter a compreensão dessas outras formas de realidade. Sendo assim, é mesmo certo que tudo aquilo que não podemos explicar seja resultado da junção de manifestações conscientes da natureza.
Não receio morrer. Anseio mudar de realidade. Se perdesses alguns minutos a observar a energia de uma árvore, de uma flor, a energia da terra negra, a energia do silêncio...e os cheiros, sempre os cheiros, os cheiros que são a prova de que tudo se movimenta...diz-me, se nos fosse possível, se a consciência humana nos falhasse, aceitarias saltar daqui e desprender-te do teu corpo para te misturares na beleza do brilho do Douro, para te misturares no som das folhas ao vento, para experienciares a verdadeira liberdade que é fazeres parte de uma harmonia indescritível? Vejo-nos daqui a sorrir. A SALTAR.
E hoje, pelo menos hoje, encontraria a paz que vim buscar, imaginando-nos, sem questionar, a cair, a deixar cair o corpo no desconhecido com a certeza que a coragem de saltar foi o mote para uma libertação que tantos questionam e tão "futilmente" abandonam.
"A conquista da liberdade é algo que faz tanta poeira, que por medo da bagunça, preferimos, normalmente, optar pela arrumação."
Carlos Drummond de Andrade
ARRUMAÇÃO = FUTILIDADE/ MONOTONIA/ BANALIDADE. Persephone
Conversa com um Imperador Romano - II
Vergílio Ferreira in "Aparição"
Às vezes tenho dificuldade em aceitar-te quando, abruptamente, me invades o espelho. Persephone
Poseidon
Irritava-o sobretudo — e esta era a causa principal de sua insatisfação com o cargo — ouvir a idéia que faziam dele, quando diziam, por exemplo, que vivia passeando pelas ondas com seu tridente. E, no entanto, permanecia sentado ali, nas profundezas do oceano, fazendo contas sem parar, uma ou outra visita a Júpiter constituindo a única interrupção da monotonia, uma viagem, aliás, da qual, na maioria das vezes, retornava furioso. Assim sendo, pouco ou nada havia visto dos mares, a não ser de forma fugaz, na apressada subida ao Olimpo, mas jamais os tinha percorrido de fato. Costumava dizer que, para tanto, esperaria até o fim do mundo, quando, então, por certo haveria ainda um momento de tranquilidade, no qual, a um instante do fim, e reexaminadas as últimas contas, poderia dar uma rápida voltinha. "
Conto de Franz Kafka
Conversa com um Imperador Romano - I
Raul Brandão in "A Farsa"
Detive-me hoje neste parágrafo. Como assim a realidade é o "negrume", o "silêncio", o "abismo", a "treva"? Recuso-me a aceita-lo! Recuso-me a excluir a realidade da minha vida, a excluir esse "negrume", "silêncio", "abismo", "treva", recuso-me a abdicar desse mal, a resignar-me a essa definição! Antónimos, opostos, dicotomias, antíteses...que seria do bem sem o mal, que seria da ordem sem o caos, da guerra sem a paz, da liberdade sem a clausura, que seria do amor sem o ódio? Porque não dar o devido valor a esses mal-amados opositores se o seu papel é fundamental na aprendizagem humana? Diz-me que não estou louca! Achas um paradoxo? Exorcizarias a realidade da tua vida para a tornares mais simples? Não, não o podes fazer, sei que não o farias. Se dissesses que sim, seria como matares a boa fé de um cristão que crê cegamente na ressurreição de Cristo, que dá sentido à vida através dessa crença, pois um dos teus papéis não foi mais do que me fazer crer a mim que, por mais dura que seja a realidade, se formos fiéis a nós próprios, a vitória é "indescritivelmente" sublime. Como te agradeço, querido...
É isso, o sublime depende da relação Homem-Realidade: a aprendizagem é maior, seremos mais sábios, quão melhor soubermos enfrentar a realidade que, consequentemente, quanto mais dura for mais sapiência nos confere.
As isotopias de realidade, então, não podem ser negativas. Brandão estava equivocado! Ou estamos todos quando, inutilmente, associamos estes adjectivos e "culpamo-los", "humilhamo-los" por não compreendermos que tudo reside na atitude humana. Persephone
segunda-feira, 21 de março de 2011
José Luís Peixoto
segunda-feira, 14 de março de 2011
(Parte da conclusão da minha pseudo-tese sobre AMOR E MORTE EM DAVID MOURÃO-FERREIRA.
“De manhã temendo que me achasses feia, /acordei tremendo deitada na areia, /mas logo os teus olhos disseram que não /e o sol penetrou no meu coração. //Vi depois, numa rocha, uma cruz, /e o teu barco negro dançava na luz; /vi teu braço acenando, entre as velas já soltas. /Dizem as velhas da praia que não voltas... /São loucas! São loucas! //Eu sei, meu amor, /que nem chegaste a partir, /pois tudo em meu redor /me diz que estás sempre comigo. //No vento que lança /areia nos vidros, /na água que canta, /no fogo mortiço, /no calor do leito, /nos bancos vazios, /dentro do meu peito /estás sempre comigo.”
"Barco Negro" David Mourão-Ferreira na voz de Mariza.
sábado, 12 de março de 2011
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
Vícios
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Ambição de beijos mordidos de coragem
Sol ambíguo rodando sob uma miragem
no deserto destas margens de não ser.
Vi-te despido de ausência
Respirando e murmurando gritos brancos
Entre os teus olhos manchados de castanho.
Roças a tua barba de desordem democrática
No meu pescoço fugidio
Bem como teus olhos dos meus.
Munido de armas numa batalha sem guerreiros
A tua guerra leva a bandeira da felicidade
Içada para ninguém.
É sonambulo o meu amor
Do qual me afasto correndo estática
Sem questionar o tremer das minhas mãos
Que seguram as tuas que me guiam para lado nenhum.
Faço autópsias aos meus sentimentos,
Vivo da morte do meu caos
Que reparte desenhos de rectas circulares,
Onde numa corda bamba me seguro sem cair.
O impossível é o nada
Subo a escada saltando degraus
Chego ao topo sem saber quem sou
E em baixo, desfragmentada
A felicidade grita-me vitória.
Assim quero ser.
Ouvir cantar o que nunca serei
Por ti tudo...rio-me...o nada é a moral que nunca quero seguir...
Persephone
Junho 2007
:/
domingo, 17 de outubro de 2010
Porque mil palavras trazem milhões de sentimentos e memórias. Porque a idade nunca separa pessoas que são naturalmente felizes juntas. Obrigada por todos os momentos.
<3 Vizinhos
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
Quem te pôs assim de olhos brilhantes
Em dias longos de risos ofegantes...
Invejo-te a certeza e o caminho de não-ser,
A alegria contra-amor de um anseio por viver.
Não pares, segue a sul,
Seduz todos os mares, ventos e lugares
À altivez dessa força meritória em alguém.
Alguém, não tu...ou tu como alguém.
Assim não dói, assim não cansa seres tu, feliz ou infeliz mas sempre com a certeza...
Não é egoísmo essa arrogância com travo insano a jasmim;
Não uses a subtileza,
Grita fogo,
Mas sê tu mesmo até ao fim.
Persephone
Julho 2010
Dedicado ao Marco, por ocasião do seu aniversário. :)
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
Mário Cesariny
Porque hoje tenho o sangue a ferver.
Porque hoje tenho vontade de te possuir.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
.
Escolhas. Inspiro e interiorizo esta palavra. Penso. Olho em volta e vejo rostos fechados, risos, conversas animadas, olhares perdidos e pensativos, expressões sonolentas. testas franzidas, e repenso que tudo é consequente à escolha. TODOS nós somos escolhas e não há nada mais imperativo na nossa vida. Não vivemos, ESCOLHEMOS viver. ESCOLHEMOS a forma, o sabor, o feitio...estou apaixonada por ti... Não foi o acaso, foi uma ESCOLHA. Irónico como a nossa felicidade é tão dependente de escolhas e mesmo assim nunca acertamos nelas. ESCOLHAS. ESCOLHAS. ESCOLHAS. Podia deixar de fazer sentido, como quando somos crianças e repetimos aquela palavra até ela perder a sua personalidade. (risos) Somos Homens porque escolhemos. Se tudo é efémero, qual a razão porque temos que escolher a cada passo que damos? ESCOLHER, não optar. Diferente? Igual? Oh, como a carga de responsabilidade aumenta até na escolha da palavra. Matar-me seria matar o mundo. Oh, como até o futuro consegue depender de uma só escolha. Não de uma decisão, mas de uma ESCOLHA. O silêncio não é um estado, é uma ESCOLHA. E da mesma forma que estes rostos à minha volta se transfiguram, toda eu me apercebo que dentro deles flutuam escolhas boas ou más que condicionam o meu presente, este instante. Escrever foi uma escolha...ou afinal uma consequência. Quantas voltas daria para modificar consequências...ou seriam ESCOLHAS?...
Persephone
(Foto por O.B @ Petite France - Estrasbourg. Texto em Março 2010, Viagem entre Porto - Aveiro, interrompido por minha escolha.)
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Por ruas de valsas longas que dancei rindo passiva de corpo lento.
Levaste-me, Troquei de par
Veloz, esperando e perdendo a raridade da calma que sobrou das quedas sobre o tempo não claro.
Eu sei, assim seria, assim conseguiria
E juntos agora, de novo pedimos paz,
Aquela que eu quis nos meus olhos água turva que a vida me recusou,
Falando à loucura e fazendo horas à minha ambição.
Agora danço com alma,
Defronte aos meus espelhos vejo a cura da minha erudição genuína.
Não nego esta felicidade,
Não é uma utopia, és TU,
És tu a valsa que vou dançar eternamente
Em batimentos certos, de vestidos longos e corpo esguio
Como sempre sonhei clandestinamente.
Persephone
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Dobre longínquo de Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minh' alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Oh que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora!
Estendo as mãos para além, mas ao estendê-las já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A Hora expulsa de si-Tempo! Onda de recuo que invade
O meu abandonar-se a mim próprio até desfalecer,
E recordar tanto o Eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola, transparente de Foi, oco de ter-se.
O Mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não conter-se...
A sentinela é hirta - a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Para que é tudo isto.... Dia chão...
Trepadeiras de despropósitos lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de ferro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros... Longes trens...
Portões vistos longe... através de árvores... tão de ferro!
Fernando Pessoa
Não resisti...é o meu favorito de Pessoa.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Guiam as tuas mãos até aqui.
Aqui poderia ser eu ou o quente-lume
Do meu cabelo loiro que afasto dos olhos para te ver.
Respira. A arte da tua presença
Molha-se de saliva misturada com prudência,
Quando me pedes silêncio ao te saber longe e ausente
Das tuas muralhas que aprendi a derrubar.
Bebo-te o olhar, sublevo os sentidos só porque,
Em permanência na tua posse,
Se anula a minha razão… meu mar, minha nudez.
Retorno eterna aos teus braços.
E porque te amo, meu amor,
Da minha desdita fiz altivez.
Persephone
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Discurso de Persephone
Todo o corpo é edível porque é da podridão que vós sobreviveis,
Mas nada, nada do que podereis fazer será distinto na glória porque vossos olhos estão cobertos de sangue que vos impede de caminhar de pé.
Rastejai, rastejai até ao Hades, morada eterna de discórdia e da paixão,
E nunca, nunca devereis temer o julgamento da vossa conduta perante a vida, pois o desprezo a vós diz respeito, e o nojo que tendes do mal é espelho de vossas mãos...
Senhores, ardei no Hades com a imagem daquilo que só a vós pertence, morrei sucumbindo e sendo ninguém...
Persephone
Persephone - Deusa Grega que, por casamento com Hádes, Deus do inferno, se torna a deusa do mesmo.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Da longa viagem que faço sem partir.
E, absorta em todos os pensamentos
Que me fazem desistir,
Fico inerte em abraços intermináveis
E lamento o tempo que passa longe da minha estrada.
Paredes meias, de costas voltadas,
Insiro Nela todas as formas seculares e involuntárias
De sorrisos e entraves
À lúgrebe forma de viver.
Despeço-me de veludos dourados,
Das palavras dissonantes; do corpo embotado,
E chamo-me a mim.
Talvez.
Embono o meu navio de guerra funesto e traço novas rotas
Meu porto me espera, algures entre a vitória e a derrota.
Persephone
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Paralyzed
This is where your sanity gives in
and love begins
Never lose your grip
don't trip
don't fall
you'll lose it all
The sweetest way to die
It lies deep inside
you can not hide
it's the meanest fire
Oh, it's a strange desire
you can not lie
that's a needless fight
This is where your sanity gives in
and love begins
Never lose your grip
don't trip
don't fall
you'll lose it all
The sweetest way to die
When your blood runs dry
you're paralyzed
it will eat your mind
Did you hold it back
It comes to you in slow attacks
It's the meanest fire
Paralyzed
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Vazia e amarga,
Sem ti, molhada de mel
Relembro todas as histórias
Em que fui rainha do teu viver,
Do teu mal amado e consumado morrer.
Senti, sentia-te em mim
Durante a unificação de nós
Morri, morria-te assim
E sei a mágoa de cor...
Volta meu amor,
Deixa-me sorrir-te e não dar,
Deixa-me partir e chegar
Tantas vezes ao nosso leito
Ao nosso amor, ao nosso amar...
Foste-te. Oh, como dói,
Faz-te em mim lembrança
Esquece-te.
E ao meu amor senil
Canta-o e destroí.
Persephone
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
A ti, Joana
podia ter tido alguém que vivesse comigo a minha pré-adolescência, que me visse maquilhar a primeira vez, que começasse a viver esse amor pela dança tão intensamente como eu, que me ouvisse cantar, que soubesse do meu primeiro beijo, que não se quisesse separar de mim e eu dela...e tive...a vida separou-nos...podia ter tido alguém que vivesse comigo a minha adolescência...que estivesse lá nas minhas primeiras grandes quedas, no primeiro impacto da responsabilidade, do sentido da existência, das lágrimas, da primeira depressão, do primeiro amor, da primeira vez...e tive, mas a vida separou-nos mais uma vez...
Depois apareceste tu, Joana. Apareceste tu. Ninguém sabe da tua existência na minha vida, porque eu quis esquecer-te. Eu sei que me conheces bem, por isso também sei que tu sabes o quanto vivo cada momento intensamente e o quanto reflicto sobre as mais pequenas coisas. Consequentemente, sabes que só te podia tentar esquecer, apagar, por puro egoísmo, por não querer mais uma página ausente de um ser. Erámos tão inseguras, tão inocentes. Lembras-te? Eu podia perdoar-te. Eu podia perdoar-me.
Hoje, neste preciso momento precisava que me dissesses que eu nunca cresci, que eu não sou mulher, precisava que me dissesses que eu não tenho consciência do mundo e que estes anos não passaram na minha vida...Seria mesmo feliz quando arrastava as caudas dos meus vestidos pretos pelas escadas daquela parada? Eu costumava achar que toda aquela pedra fria daquele velho quartel condizia comigo...Eu era só a miúda de negro que ouvia metal e estudava literatura. Gostava do estatuto, ninguém se preocupava em saber mais...eu sim, tinha paz. Uma paz tão aparente que quando tirou a máscara levou-me para longe. Demasiado longe de mim. Achas que eu sempre soube o que sou? Diz-me tu se eu já fui feliz, diz-me que tudo o que vi fez de mim alguém melhor. Já não és. Já não somos. Isso assusta-me. Assusta-me a partilha tornar-se vazio e com o tempo ausência e indiferença. Será por isso que sou emotiva? Será por isso que sou impulsiva? Inocente? Infantil? Incoerente? Eu sei que tu sabes, diz-me se dou demasiada importância aos valores? Devia dar mais? Diz-me se é um erro. Como das vezes que me encostava a ti e tu cantavas comigo a música das galinhas e logo a seguir me chamavas criança. Será por isso? Será que os meus valores estão errados? Às vezes odeio-te. Só porque me lembro de ti e porque os anos passaram e eu posso agora dizer "podia ter tido alguém que me acompanhasse na minha juventude, que me visse realizar os meus primeiros sonhos como mulher, que me visse afirmar-me, a ter responsabilidades, a formar-me como pessoa, que fosse minha cúmplice a toda a hora e gostasse de todos os meus defeitos incondicionalmente...e tive...mas a vida separou-nos, Joana"... e eu não posso fazer nada...
Não sabes como doí, como lamento. És um segredo só meu. Esqueci-te.
Acredita que gosto muito de ti.
Um beijo
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Essa tua voz manchada de ordem e força
Que roça em mim embalando-me,
Tal como esse movimento viciante
Que transforma os traços da tua pele
Em sorrisos vagos, deliciosamente delicados
Como ouro no céu.
E eu descanso no erro, turvo erro de estado contra-amor;
Devia ter-me sido permitido amar-te desde o dia em que nasci,
Mas se algum dia morri, tudo é teu,
Despida de medos, sem fraquezas.
Grito o fogo árduo que queima bem lento
Sempre que o teu cheiro me alucina e o corpo fraqueja ao desejo das tuas mãos.
Rio-me, rio-me nos meus segredos que tu nunca vais descobrir
Sim, aqueles que tu conheceste no meu olhar
Que permanecem na ilusão de meus serem...
TENS-ME!
Meritório na tua altivez, rendo-me à tua presença
Não sou minha de encontros em existência
Mas desarma-me que o sempre será a nossa sentença.
Persephone
Não sofre,
Guia-se pelas reticências intermitentes que a luz ao caminho abandona.
São mais mágoas que sonhos esbatidos de desespero quando o sono o corpo derrota.
Se a alma enfim se alimenta, rápido desfalece às constantes batalhas que trava com a sorte.
Doce missivo, tuas palavras encerram em mim a angústia de te ver partir,
E com meu doentio e perdido amor,
Acordo a noite com gritos de morte.
Oh saudade, não te sustentei em vão,
Mas em vão te deixei gozar no teu limbo, o triunfo da tua essência...
Mas tu...se te chamar ou agarrar a mão,
Dois corpos não chegam para rasgar as imundas palavras da boca dos rebeldes humanos
Que atingem a nossa perfeição.
Tão insignificante e tão doloroso, tão dócil e infiel,
Existimos num olhar,
Exaltamos o nosso poder com glória,
O amor em nós foi fatal...
Abra-se o chão, fomos derrotados.
Ajoelhai-vos Senhores,
Vosso destino foi traçado pela infelicidade imortal....
Persephone

